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É, é poesia sim. Por que, vai encarar?


Hoje, neste espaço assumidamente impostor, inauguro a meiga série "É, é poesia sim. Por que, vai encarar?”

FOI UM MOMENTO

Fernando Pessoa


Foi um momento

O em que pousaste

Sobre o meu braço,

Num movimento

Mais de cansaço

Que pensamento,

A tua mão

E a retiraste.

Senti ou não?

Não sei. Mas lembro

E sinto ainda

Qualquer memória

Fixa e corpórea

Onde pousaste

A mão que teve

Qualquer sentido

Incompreendido.

Mão tão de leve!...

Tudo isto é nada,

Mas numa estrada

Como é a vida

Há muita coisa

Incompreendida...

Sei eu se quando

A tua mão

Senti pousando

Sobre meu braço,

E um pouco, um pouco,

No coração,

Não houve um ritmo

Novo no espaço?

Como se tu,

Sem o querer,

Em mim tocasses

Para dizer

Qualquer mistério,

Súbito e etéreo,

Que nem soubesses

Que tinha ser.

Assim a brisa

Nos ramos diz

Sem o saber

Uma imprecisa

Coisa feliz.



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