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2020.

Atualizado: Jun 11

O drofgie rasgou o céu de lado a lado, ignorando as estrelas e os pequenos meteoritos, enquanto deixava atrás de si um rastro amarelado de luz. Era o quinto aquela noite.

Ivitóvy ainda não havia saído da sacada de seu obara, desde que Myrja se fora, levando consigo um pouco da alegria dele. Nada comparado ao que ele ainda sentia e que preenchia seu peito.

Finalmente, quando o pontinho quase invisível ainda denunciando a existência do coche abrado de Myrja, seguindo seu curso, desapareceu, foi que ele se decidiu por entrar e calçar os sapatos glues. Ia precisar deles novamente esta noite.

Já na sala central ele atrasou os passos de forma quase imperceptível, de modo a garantir que o látex branco se ajustasse de maneira correta assim que ele atravessasse a luz de íbridon da vestidora automática.

Anos e anos fazendo a mesma coisa e ainda agora ele receava que a veste se rasgasse, como quando ele ainda nem havia completado 12 anos, diante de meia paroka de amigos que se divertiram a valer, zombando do pobre Ivitóvy que, constrangido, acabou desistindo de seguir para o Pátio Festeiro aquela tarde com eles.

Ele refletiu rapidamente sobre os traumas bobos que se abatem e se mantém sobre a gente, mesmo com o passar dos anos e as inúmeras mudanças que a vida traz diante de nós.

Agora mesmo ele ainda lembrara, ao lado de sua gronobla, por quem havia se apaixonado pouco tempo depois do fatídico dia na vestidora, que eles se conheciam e haviam se enredado nesse romance tão suave e definitivo já há 7 vezes 12 anos: o que era muito, mesmo para os padrões do nosso planeta.

Com o olhar serrado do olho esquerdo, desconectou o travo da porta e saiu descendo a lâmina inclinada que o deslizaria até o ejetor central.

Entrou ali e, sem dizer palavra, sentiu o ejetor iniciar sua jornada rumo ao centésimo nono andar.

Um de seus catorze pais lhe ensinara aquele ofício, ainda quando nem haviam desenvolvido os glues de hoje em dia. O movimento dos braços, a concentração e os gestos solenes, coreográficos, eram o segredo.

Irrigar de energia e de água tanto o edifício quanto as plantas arquitetônicas era uma das suas três obrigações voluntárias diárias. Perpendicular ao prédio, ele descia pela face externa, houvesse chuva ou luz lunar, com os pés perfeitamente colados ao emaranhado da vegetação estrutural da construção - mais uma dessas edificações 100% naturais, muito em voga desde 1999.

Então, Ivi, como Myrja o chamava carinhosamente, vinha fazendo todo o percurso, do topo até embaixo, em seu ritual que exigia elegância, concentração e movimentos coordenados de modo a liberar, com a energia mental exata, todos os ingredientes armazenados em vírions discretíssimos, implantados um a um sob os caules que davam sustentação àqueles 109 pavimentos neurais.

Já tocando os pés no solo, ele ajeitava o corpo voltando outra vez a ser regulado pela lei da gravidade e sentia novamente seu coração saltar de alegria.

Agora faltava menos do que antes.

Precisava buscar o seu coche adrado e ir na direção do deserto artificial de Morne, onde cumpriria com suas outras duas funções voluntárias, antes de se reencontrar com Myrja, que jamais lhe escapava do pensamento.

No caminho cruzou com Lero e Leta, casal amigo que acenou com suavidade para a câmera de Ivi. Ele retribuiu com um silvo do coche. Os três riram amistosamente.

No volumétrio da cabine os acordes dos Trevors - sempre eles - adoçavam ainda mais o dia e davam um ar de renovada esperança a Ivitóvy, que amava aquela trilha sonora para cumprir as milhas que o separavam do deserto de Morne.

Agora, com o dia já claro, o coche atravessava os caminhos floridos da City em direção ao seu destino. E nada, nem o arco-íris cotidiano que já se formava à frente dele, o distraía da tarefa que havia sempre que honrar.

Ninguém podia deixar de cuidar de suas obrigações voluntárias: era como ficara determinado por seus ancestrais logo depois da Grande Catástrofe de 1982.

Falando assim parecia muito menos tempo, já que antes os anos ainda seguiam os padrões unitários de 365 dias e jamais se repetiam em perspectiva heptadimensional.

Depois da Catástrofe, até por conta das mudanças na composição da matéria - prótons e elétrons e nêutrons em seus novos papéis e configurações - cada ano representava um total de sete anos, e... bem, não era mesmo hora para pensar nisso enquanto os Trevors tocavam mais uma de suas monotônicas e belíssimas canções.

Hoje era dia de fazer tudo de uma forma ainda mais feliz, já que era, justamente, a passagem do setério anual, quando os sete anos se alinhavam e encerravam aquele ciclo, levando a feliz vida do planeta a um novo numerário de um novo ciclo de sete novos anos.

Ele ainda teria que ritegar 12 poços de água elétrica no deserto e, no caminho de volta, desfronhar o céu que seria o pano de fundo para aquela noite de festa.

Os catorze pais e catorze mães de Ivitóvy ficariam orgulhosos de vê-lo integrado e responsável daquele jeito.

Era o seu melhor momento desde a adoção geral de crianças de 1947.

Desde que decidiram misturar bebês e seus nascimentos para que todos se sentissem pais e mães de todas as crianças do planeta, as adoções gerais aconteciam anualmente.

Ivi estava feliz.

E, apesar do dia parecer se arrastar mais do que o usual, o fato é que às 5 da tarde, ele começava o seu caminho de volta para casa e para os braços de Myrja, que certamente estaria linda em seu látex novo no Parque Festeiro aquela noite.

Foi quando ele sentiu uma pequena pontada na parte de trás de sua cabeça, logo acima da nuca. Ainda não tinha sentido aquilo, até porque dor era algo que não se sentia mais, desde a rearrumação das partículas de 1987/3º heptante.

Ainda assim não deu maior atenção àquilo - mesmo quando as pontadas se repetiram por mais duas vezes, agora associadas a uma tontura incomum, uma sensação de adernar em alto mar.

De volta ao obara ele se despiu na vestidora, agora já sem atrasar o passo como fazia sempre, e pulou sem delongas no chafariz de seu higienizador.

Na tela lateral surgiu a chamada de Myrja que perguntava ansiosa se ele ainda demoraria muito para ir ao seu encontro no Parque Festeiro. Ele sorriu, mesmo sentindo nova pontada sobre a nuca; dessa vez, definitivamente, mais forte e mais longa.

Correu para o quarto de secagem, voltou já calçado com os desliseres, atrevessou a luz de íbridon, novamente arredio, com medo do rasgo no látex branco novo, e saiu em direção à sua gronobla amada.

Era a página 45, que começava a ficar bem amarelada, esfacelada, quando foi recebido com grande alegria por toda a paroka. Todo mundo reunido ali, celebrando a chegada do dreuda querido, que, se esgueirando entre todos que o assediavam com abraços e afagos no límio, descobriu o olhar pontiagudo de sua Myrja, cada vez mais arrebatada por ele.

Brigio foi quem avançou sobre ele, trazendo um cilindro de mértiêr, que Ivi tomou quase de um só gole. Mas Brigio já viera preparado e tinha o suficiente para lhe servir o segundo, coisa que fez completando o cilindro até a borda.

Não foi a bebida, por certo, que fez o braço de Ivi se descolar do corpo e cair pesado sobre o chão, ante o olhar aterrorizado da paroka e de desconhecidos que se esbarravam na festa de anos novos.

A pontada na cabeça aumentava de frequência e de intensidade, mas agora Ivi não conseguia mais disfarçar o desconforto. Não era todo dia que se via desprender de seu corpo um membro inteiro, precipitado em direção ao solo, irrecuperável e inerte.

Mas não houve muito tempo para conjecturas. Enquanto os contadores temporais aceleravam rumo à meia-noite, as rodilhas de Ivi giravam intermitentes em operação de desengate do restante das pernas.

E o corpo dele praticamente desmoronou.

Myrja tentou escorá-lo, mas o máximo que conseguiu foi fazer com que se estatelasse sobre uma cadeira pélvica.

Sem se aperceber do que ocorria, a multidão prosseguia na contagem regressiva rumo aos novos anos.

Mas os que rodeavam Ivítóvy se desesperavam com a incompreensível sucessão de acontecimentos que o envolveram.

Agora era a cabeça de Ivi que pendia como se quisesse deitar e se deixar abandonar sobre seu ombro. Não era algo agradável de se ver, especialmente quando as artérias, esgarçadas, começaram a espocar, jorrando sangue em movimentos circulares.

10, 9, 8... Myrja, desesperada, gritava indagando sobre o que estava acontecendo.

7, 6, 5... Leta e Lero escondiam os rostos para não verem cena tão estranha e feia.

4, 3, 2... Fogos de silário já começavam a explodir, abafando as vozes da paroka, em estupefação e medo.

1...

Felizes Anos Novos!

E os olhos de Ivitóvy saltaram do rosto.

O planeta Terra entrava em 2020. E a ficção se chocava com a realidade.

Livros antigos têm esse problema: os de ficção futurista, pelo menos.

Prenunciam tempos de utopia e de perfeição, sem se darem conta de que alguns de nós estaremos vivos quando aquela data, antes longínqua, nos alcançar. E não prevêem o impacto de quando nada, nenhuma daquelas previsões se confirmar.

Felizes anos novos! – gritaram muitos, ali pela página 52, com Ivi já desmaterializado, tornado pó diante deles.

E todos sentiram as primeiras pontadas logo acima de suas nucas.




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