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A apresentação no escuro



– E para apresentar o planejamento da empresa para o próximo triênio, passo a palavra ao nosso diretor, Luiz Paulo.

Todos os olhares se voltam para mim. Levanto-me com gestos medidos, abotoo meu paletó e assumo a frente da mesa. Não tão rápido que passe afoiteza, nem tão lento que transmita insegurança.

Muito bem, é agora. Os próximos três anos. Como dizer a essa gente que não faço a menor ideia? Se eu não sei onde passar o próximo fim de semana, se na casa dos sogros na praia ou no sítio do amigo em Tatuí; se minha mulher é quem escolhe minhas camisas; se suo frio na sorveteria para escolher 1 entre 100 sabores, quem sou eu para prever como serão os próximos anos?

Começo mostrando um gráfico cheio de retas, cores e certezas. Aquela flecha, que sai do quadrado branco e vai para um círculo verde, queria dizer o quê, mesmo? E por que aquele número acende e apaga, chamando a atenção, apaga e acende, deve ser algo importante, mas esqueci. Vejo um sorriso: é o sacana do Osvaldão, que quer minha cabeça e se diverte com meu desespero.

Há três anos, nem na empresa eu estava; nem previ que estivesse. E se não posso planejar o meu futuro, como ditar o que vai acontecer na empresa, no mercado, no mundo? Sou um impostor. Um impostor com bom salário, fluência em inglês e espanhol, vaga no estacionamento, reconhecimento profissional – ou seja, um impostor gabaritado.

Puf. A luz acaba. A apresentação é interrompida. Disso tenho certeza: tenho sorte. Todos se levantam para um café ou conferir as mensagens no celular. Não vou sair. Vou aproveitar o tempo para refletir, ruminar minha incapacidade, dividir a inutilidade com esses gráficos sem sentido. Ninguém está vendo, vou fumar um cigarrinho escondido aqui mesmo, quem sabe a brasa ilumine o escuro em que tudo se envolveu.

No tempo exato em que apago e jogo o cigarro morto no lixo, a luz volta. É. Tenho sorte.

De volta à apresentação, comento uma ou outra linha, interpreto gráficos, tento impressionar. Até que todos me olham como se fosse a hora da conclusão. Um suspiro e a deixa final:

– Em resumo, senhores: o que nos espera para o próximo triênio é, sem dúvida...

Sem dúvida. Tiro um papel do bolso. É o papel que o periquito do realejo escolheu ontem para mim, durante o passeio no parque com as crianças. Desembrulho o papel amarelo desbotado. Após uma pausa estudada, leio com voz decidida:

– Não tente adivinhar o futuro. Trabalhe. Trabalhe e a recompensa virá. Seu destino é chegar aos 100 anos com saúde e muitos herdeiros, um deles Senador da República. Seu número da sorte é 17 e sua cor, azul.

Ergo a cabeça e olho firme para as reações. As luzes da sala se acendem e ferem os olhos. Há um momento de hesitação entre os presentes. O miserável do Osvaldão abre aquele sorriso de quem está certo de que desta eu não escapo. Até que o presidente inicia as palmas, a princípio, lentas, aos poucos, mais entusiasmadas, e vai sendo acompanhado por todos:

- Excelente conclusão. O futuro é incerto, não há como prever nada na atual conjuntura, ainda mais no caos em que está o país, vide o Senado bem citado, só nos resta trabalhar, trabalhar e contar com a sorte – de minha parte, sempre confiei no número 17. Só assim chegaremos aos 100 anos em pleno azul e com muitos herdeiros.

Sou o último a sair da sala. O primeiro foi o Osvaldão, batendo pé. Últimos tapinhas nas costas, apago as luzes, ganho o corredor vazio, ouço o eco dos passos aliviados. E acende a dúvida: por que diabos meu filho iria querer ser Senador?




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