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A cirurgia.

O marido está sentado no corredor do hospital.

Tem o que? Setenta, setenta e cinco anos.

É uns dez anos mais novo do que a mulher.

Hoje não faz diferença a idade.

Fazia quando se conheceram, há mais de quarenta anos.

Ele era um jovem técnico de som na rádio.

Ela, produtora executiva.

Alguns acharam que o garoto era ambicioso, queria dar o golpe do baú, como chamavam naquela época.

Não era.

Era amor mesmo.

Namoraram por uns anos, depois foram morar juntos.

Nos anos setenta, morar juntos pegava mal.

Era coisa de hippie.

Mas eles eram hippies mesmo, talvez.

Casaram, mas não na igreja e nem no civil.

Foi uma cerimonia na praia, só com os amigos mais próximos e um sujeito que tinha inventado a própria religião.

Depois de uns 10 anos juntos, pararam de achar que eram hippies e que ele queria dar o golpe do baú.

Foram felizes.

Viajaram o mundo, compraram um apartamento, continuaram trabalhando em rádio.

Quando ela trocava de emprego, levava ele junto.

O tempo passou.

Envelheceram.

O apartamento ficou menor, porque os anos encheram os espaços com livros, discos, tapetes e lembranças das viagens que faziam.

As rugas desenharam outros rostos em cima dos antigos.

Continuaram juntos, apaixonados e hippies, mesmo sem ninguém perceber.

Nos últimos anos, ela começou a ficar doente toda hora.

Teve que tirar a vesícula.

Depois começou a ter problemas na tireóide.

Ele sabia que mais dia, menos dia isso ia acontecer.

Ele sempre achou que mulheres envelhecem muito mais rápido do que homens, ainda mais ela, que era dez anos mais velha que ele..

Faz três dias que ela começou a passar mal.

Não sabia o que era, mas não era covid.

Não tinha febre, nem tosse, nem falta de ar.

Sentia uma dor forte no estômago.

Como eram hippies, preferiam remédios naturais.

Tinham dezenas de chás, um para cada problema.

Mas um dia depois, não houve chá que diminuísse sua dor.

Ontem a noite ela acordou gritando.

Decidiram ir para o hospital às pressas.

Correram para o hospital e ele não pegou nem a carteira, nem o celular.

Por sorte ela não saia de casa sem bolsa, nem quando chorava de dor, então tinha seus documentos.

Foram para o Sírio, que era o hospital do plano de saúde.

O plano era muito caro, porque os dois tinham mais de setenta anos.

Então nas poucas vezes que o chá não resolvia, iam logo ao Sírio, que é para fazer valer o que pagavam.

Quando pensou no preço do plano de saúde ele ficou feliz dela ter juntado dinheiro.

Ao chegarem no Sírio ela não conseguia conter os gritos de dor.

Os médicos a colocaram numa maca e sumiram lá para dentro.

Não deixaram que ele fosse junto.

Agora ele estava sentado no corredor, sozinho, preocupado com a mulher e pensando na vida que tiveram juntos.

Lembrou das viagens. Conheceram mais de trinta países.

Pensou que se tivessem a coragem para ter filhos, teria sido bom, mesmo nesse mundo tão materialista.

Encostou a cabeça na parede fria e fechou os olhos, tentando cochilar um pouco.

Ninguém tinha pedido a carteirinha do convênio.

Antes de pegar no sono, teve medo de nunca mais ver a mulher.

...

A mulher foi levada para uma sala reservada, só com macas e gente sofrendo.

Não conseguia falar de tanta dor.

Deram para ela um remédio à base de morfina, que levou meia hora para fazer efeito.

Nesse intervalo, uma médica fez um monte de perguntas que ela não sabia ou não conseguia responder.

Enquanto perguntava, a médica apalpava sua barriga.

Um lugar que ela apertou doeu muito.

Tinha medo.

Onde será que ele está?

Será que na recepção fazendo os trâmites para interná-la?

Viu que a bolsa estava na maca, perto do seu calcanhar, e lembrou que a carteirinha do convênio estava dentro.

Depois que a dor aliviou um pouco, fizeram um ultrassom e uns outros exames de sangue.

Havia uma hemorragia interna, ou era apendicite.

Ela não sabia direito porque tinham dado Dormonid para que ela dormisse para ser operada de emergência.

Quando acordou já estava no quarto, individual, porque o plano de saúde era caro mas tinha esse conforto.

Estranhou o marido não estar lá, mas achou que ele tinha saído para comer alguma coisa.

O médico entrou e explicou o que tinha acontecido.

Ela perguntou pelo marido, mas o médico não sabia onde ele estava.

Ninguém sabia.

Não sabiam nem mesmo que ela era casada.

...

Dois dias depois ela recebeu alta.

Um moço moreno, alto, veio com uma cadeira de rodas para levá-la até a saída do hospital.

Ela disse que podia ir andando, que se sentia bem, mas ele disse que aquele era o protocolo.

O moço não quis dizer que aquele era o protocolo porque ela tinha mais de oitenta anos e o hospital não queria se responsabilizar se ela caísse.

Ela perguntou se ele sabia onde estava o marido.

Já tinha perguntado para todas as enfermeiras e nenhuma sabia.

Quando ela estava chegando na porta, com o moço empurrando sua cadeira, pediu para que ele a levasse até a recepção.

Perguntou do marido.

A moça da recepção, uma novinha, não sabia nada dele.

A mulher estava muito preocupada.

Não tinha para quem ligar, porque não tiveram filhos.

Seria bom se tivessem tido coragem.

Mas não quiseram colocar mais uma vida nesse planeta corrompido.

Ela entrou num táxi, porque não sabia usar Uber.

Chegou em casa e o marido não estava.

...

O moço que empurrava a cadeira de rodas e a moça da recepção não quiseram dizer nada.

Nem as enfermeiras.

Nem mesmo o médico que fez a cirurgia e deu alta.

Não falaram sequer entre eles.

Mas todos desconfiaram que o marido da mulher foi o sujeito encontrado morto, sentado no corredor do hospital.

Não tinha documentos, nem celular.

Foi enterrado como indigente.

Justo ele que achavam que ia dar o golpe do baú.

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