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A coluna da ISTOÉ dessa semana.

O REI DO NADA


Era uma vez um Rei de Nada.

Um Rei que ninguém obedecia, porque seu reino era um reino sem nada.

Não tinha dinheiro.

Não tinha educação.

Não tinha saúde.

Não tinha saneamento básico.

Não tinha segurança.

Quando o Rei fazia promessas, ninguém acreditava.

Quando dava ordens, ninguém obedecia.

Esse Rei mandava, no máximo, no seu castelo, que era até onde sua vista alcançava.

Mesmo assim, ele era o Rei.

Escolhia e desescolhia quem podia e quem não podia entrar em seu castelo.

Quem pensava como ele, entrava.

Quem não pensava, saia.

O Rei andava pelo reino ofendendo, gritando, agredindo todos os que discordavam dele.

Fazia piadas que ninguém ria.

Mentia mentiras fáceis de serem desmentidas.

Afirmava afirmações fáceis de serem contestadas.

Alegava alegações fáceis de serem desmascaradas.

Mas o povo do reino não se importava com aquele Rei.

Na verdade, não se importavam com Rei nenhum.

Porque, para os plebeus, Reis só serviam para cobrar impostos, já que nunca tiveram dinheiro, educação, saúde, saneamento básico e segurança.

Então não ligavam para o que qualquer Rei falasse.

E se acostumaram com a idéia de que nenhum Rei daria nada para eles.

Um dia, uma praga atacou aquele reino.

Uma praga que matava milhares, todos os dias.

O Rei, no alto de seu umbigo, dizia que não existia praga nenhuma.

Que aquilo não era para se preocupar.

Que era só uma gripezinha.

E os que viviam no castelo, concordavam.

As mortes se acumulavam e se alguém no castelo falasse em praga, o Rei mandava cortar sua cabeça.

Tanta gente morria com a praga, que não conseguiam nem mesmo enterrar os mortos.

O Rei, mimado, da torre do castelo via os mortos se empilhando pelas ruas, mas se recusava a admitir que eram vítimas de uma praga.

Um de seus generais tentou, com muito cuidado, tratar da questão.

– Majestade, não seria a hora de tomarmos uma atitude?

– Sim! Sim! Vamos fazer um churrasco real no sábado!

O general saiu decepcionado, mas foi comprar a picanha.

Com o tempo, os plebeus com medo da praga, passaram a não sair mais de casa.

O Rei gostou, porque com isso diminuiria a violência.

Olhava do alto da torre de seu castelo e as ruas estavam desertas, a não ser pelos mortos, que já começavam a cheirar mal.

Mas o Conselheiro de Finanças ficou preocupado e veio ter com o Rei.

– Majestade, estou muito preocupado. Se as pessoas não saírem de casa, não vão ter dinheiro para pagar os impostos.

O Rei não havia pensado nisso.

Ordenou que todos saíssem de casa, mas como sempre, ninguém obedeceu.

O Rei chamou os conselheiros para receber conselhos.

Um dos conselheiros sugeriu que o Rei admitisse que existia uma praga, mas que só matava os velhos.

O Rei mandou cortar a cabeça do conselheiro e colocou outro no lugar.

Assim, meses se passaram.

A situação só se agravava.

Os plebeus não saíam mais de casa.

A taberna, o ferreiro, a estalagem fecharam.

O dinheiro do reino acabou.

O reino parou.

Os plebeus morriam de praga, de frio e de fome.

Enquanto o Rei andava de jet ski no lago do palácio.

Nas ruas, começaram a falar em revolução.

Em tirar aquele Rei cruel e colocar outro no lugar.

Mas desistiram.

Porque o povo sabia que era perda de tempo.

Porque todos os Reis são iguais. Sai aquele, entra outro igual.

Então deixaram para lá.

O Rei continuou reinando para si mesmo.

E para os príncipes.

Ah, os príncipes.

Esses viviam adulando o pai, porque sabiam que um dia, todo aquele nada seria deles.

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