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A decadência.

Aqui, trancado em casa, mesmo depois de alguns impetuosos decretarem que já podemos sair, após meses nessa situação de completa impotência, é inevitável olhar para a vida com outros olhos.

Encarcerados sem cometer crime algum, nossa natureza obriga a olhar a vida através da perspectiva do presidiário, que revê seus passos e se pergunta como veio parar aqui.

De onde estou, pela janela da minha privilegiada cela, vejo a cidade passar hora após hora, dia após dia, há meses.

Assisto a vida, diariamente, quase como a reprise de um filme mudo.

O sol nasce cada dia mais à esquerda.

O fim da tarde é dourado.

As manhãs nascem sob a bruma leve da madrugada.

As luzes dos prédios que construímos, sem a intenção de nos conter, acendem e apagam nos mesmos horários, resquícios de uma rotina que não existe mais.

Com o tempo, vejo a decadência.

Os prédios comerciais e os hotéis da Berrini, que antes representavam um desafio, um território a ser conquistado, hoje são só sombras ocas, derrotados por uma proteína microscópica.

A mesma que jogou por terra décadas de sonhos agora tão démodé.

Semanas de oito horas, 24/7, se formar, crescer, progredir, vencer na vida, viraram ecos distantes de um desvairado projeto de vida.

A pandemia lambeu a areia da praia e apagou tudo que escrevemos para nosso futuro.

Essa decadência veio tão rapidamente que nos calou à todos.

Sob as máscaras, estamos inertes, sem reação.

Sair de casa é apenas a tentativa de trazer de volta alguma organização à esse estático caos que se estabeleceu.

Ninguém, nem nossos pais, e talvez nem mesmo nossos avós, assistiram uma ocorrência em escala global como a que estamos vivendo.

Só mesmo em filmes de ação a humanidade é colocada em risco de maneira tão democrática e tão rapidamente como o que estamos vivendo.

Basta pensar que - apenas em auxílio emergencial - o governo brasileiro já distribuiu o equivalente a 9 anos de Bolsa-Família.

Quem sabe são essas dimensões no impacto e na velocidade que nos calou a todos.

Quem sabe, por isso, não reagimos às atrocidades do governo atual.