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A internet da minha mãe.

Atualizado: Out 23

Há algumas décadas, minha mãe queria saber o que era internet.

Eu, como filho dedicado, instalei wifi, abri uma conta no Facebook e dei a ela um iPad.

Daquele dia em diante, minha mãe compreendeu que internet era o Facebook.

E que Facebook era um aparelho da Apple.

Nada de wifi, email, instagram, nada disso.

Internet = iPad.

Às vezes me liga.

– Filho, minha internet quebrou.

– Você carregou, mãe?

– Ah! É isso. Esqueci.

No Facebook, aos poucos, minha mãe foi encontrando velhos amigos.

Clicava no botão para adicioná-los e dava meia hora para obter a resposta.

Uma hora no máximo, dependendo da intimidade e da saudade.

– Não respondeu, cancelo - ela dizia, sem paciência.

– Se vai esnobar, não quero mais.

Surpreendentemente, conseguiu resgatar contatos antigos e montar um razoável grupo de amigos.

Facebook é sua parada diária, que ocupa umas boas horas do seu dia.

Algumas horas porque minha mãe tem um jeito muito pessoal de navegar na rede social.

Não assimilou muito bem o conceito de "timeline".

Então, quando tira sua internet do carregador e acessa, clica em "amigos" e vai entrando página por página.

Leva tempo.

Mas ela não liga.

Gosta de ver cada página, cada foto.

Tudo ia bem, até que uma amiga parou de responder suas mensagens.

Uma que não mora no Brasil.

Ela me perguntou o que poderia ter acontecido.

Disse que não sabia. Que talvez ela devesse telefonar e ver se está tudo bem.

Ela não telefonou.

Continua entrando todos os dias na página, que não tem mais atualização há meses.

Eu imagino o que pode ter acontecido.

Mas prefiro não dar ideias.

Deixa ela.

Se me perguntar de novo, vou dizer que é algum problema na internet.


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