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A Maldição de Joelma.

Joelma tinha esse nome em homenagem ao edifício que pegou fogo no centro de São Paulo em 1974, vitimando 191 pessoas e deixando mais de 300 feridos.

– Quem é que faz homenagem para incêndio, padre? Hein? Me fala. Esse meu nome é uma maldição. Eu juro que é. Por isso nada dá certo na minha vida.

– Filha, isso não existe. Maldição é crença popular. É até um pecado você acreditar numa bobagem dessas. Deus não olha para o seu nome. Deus olha para sua alma.

– Ah padre...as vezes eu acho que Deus esqueceu de mim, isso sim.

Estavam os dois sentados no último banco da nave vazia da Igreja Matriz do Divino Espírito Santo de Itápolis.

Joelma se confessava diariamente, ali mesmo, naquele banco.

Já tinha intimidade suficiente com o padre para não precisar da privacidade do confessionário.

E, de mais a mais, não tinha ninguém na igreja naquela hora.

Nem em hora nenhuma,

Depois que abriram um centro espírita ao lado da Prefeitura, uma igreja Evangélica ao lado da Pizzaria e um Terreiro de Umbanda na frente da Caixa Econômica, a frequência da igreja despencou.

Joelma era uma das poucas fiéis que continuavam assíduas.

E se dependesse dela, continuaria por anos, porque nada dava certo na vida dessa moça.

O padre pensou até em sugerir um desses life coaching que via no Instagram, mas não podia perder mais uma ovelha.

Então escutava a confissão diariamente.

– Reze dois Pai Nossos e duas Aves Maria e vai em paz, minha filha.

O padre levantou e deixou a moça ajoelhada, cumprindo sua penitência.

Era na Sacristia que o padre falava com Deus.

– Ô meu Senhor...o que eu faço com essa sua filha? Me dê um sinal, meu Deus! - Padre Antonio falou em voz alta, como se Deus, assim, pudesse ouvi-lo.

– Faça o que o seu coração mandar, Antonio. - Deus respondeu com sua voz grave, em alto em bom som.

Não Deus, propriamente dito.

Quem respondeu foi o próprio Padre Antonio, num falsete barítono muito convincente, desenvolvido ao longo de anos, duas oitavas abaixo de seu timbre normal