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A metaviolência.

Um policial, no meio de uma das ruas mais movimentadas de São Paulo, saca a sua pistola e caminha em direção a um colega, também policial.

Passa um pouco da hora do almoço da sexta-feira.

Ambos estão fardados, trabalhando para nos proteger.

Ao menos é o que esperamos.

A pistola agora está a poucos centímetros do rosto do companheiro.

Os dois discutem em voz baixa.

Não dá para ouvir ou saber as razões por trás do confronto.

A multidão, em volta, vai ao delírio.

Agora estamos em Roma, no Coliseu.

A audiência quer ver sangue.

Filmam e fotografam, na iminência de conquistarem centenas de curtidas e, quem sabe, dezenas de seguidores.

Irão à loucura se a arma disparar e os miolos do policial estamparem a parede da loja de armarinhos.

Não estão preocupados com o risco de um disparo acidental acertar quem está assistindo.

Se acontecer, melhor.

Um popular estrebuchando no meio da rua também serve.

Não vale o mesmo número de curtidas que um policial atirando em outro, é verdade.

Esse seria realmente o pináculo da semana.

Nós, que não convivemos com a rotina dos camelôs, dos ambulantes, dos nóias, dos corre, não entendemos como pode acontecer uma situação como essa.

Para nós, é uma ocorrência absurda de violência dentro da violência.

Um ouroboros.

Aquela imagem da serpente que engole a própria cauda.

A violência das ruas, que leva à violência policial, que leva à violência nas ruas de um policia contra outro policial.

O amigo que me mandou o vídeo sobe mais um degrau nessa violência:

"Por isso que sou a favor do porte de armas para o cidadão de bem"

Cidadão de bem.

Mas espere.

Um policial não deveria ser um cidadão de bem?

Quem escolhe quem serão os cidadãos de bem que terão direito de portar armas?

Será que os "detratores" que o governo Bolsonaro listou esta semana, usando recursos públicos, serão considerados cidadãos de bem? Filiados ao PT serão cidadãos de bem?

Onde vamos traçar a linha que separa a violência da não violência?

Ou, talvez, a violência já esteja tão presente no nosso sangue que seja impossível separar o que é vírus do que é anticorpo.

Outro amigo me explica:

"Para você, que é um burguesinho, isso é uma 'ocorrência'. Para o povo das ruas isso é o cotidiano. Uma sequência infinita de ocorrências como essa, o dia inteiro. O ano inteiro. Há décadas. A diferença é que agora eles podem filmar e mostrar para gente como você. Não porque querem mudar alguma coisa. Mas porque querem mostrar como são mais fortes, mais resistentes que você porque vivem nessa realidade."

A violência, afinal, sempre serviu apenas para isso.

Para mostrar quem é o mais forte.

Desde muito antes do Coliseu.



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