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A pós-angústia.

Atualizado: Jun 15


A gente anda muito angustiado, não é mesmo?

Eu ando.

Ando tão angustiado que me dou conta de que a gente está chamando de angústia um outro sentimento que, porque é novo, não temos uma palavra que o defina.

Nessa hora, você que não tem paciência para textão vai dizer: “Não viaja, Neto! Estamos assim por causa do corona, da covid, da quarentena, da economia e do nosso confuso governo. É angústia e não me enche o saco”.

Sei lá.

Acho que esses motivos todos são só os catalisadores que disparam na gente um sentimento inédito.

Que por falta de palavras, chamamos de angústia.

O que me refiro aqui é a um sentimento desconhecido até hoje, que se alojou numa camada um pouquinho mais profunda da cabeça da gente.

Explico.

A velha e boa angústia de existir sempre existiu e está intimamente ligada às expectativas e riscos aos quais nos expomos para atendê-las.

Custo versus benefício de nossas ações, que constantemente reavaliamos, mesmo sem querer.

Afinal, desde os filósofos gregos a gente aprendeu que a vida está sempre em movimento.

Heráclito disse que a gente não pode se banhar duas vezes no mesmo rio, pois o rio, e nós mesmos, mudamos a cada momento.

Nietzsche dizia que viver é essa mudança constante, resultado da luta do homem contra o incontrolável.

Nossas células nascem e morrem todo o tempo.

Estamos nascendo e morrendo dia após dia, para quem prefere menos filosofia e mais biologia.

E todos nós, os sete bilhões de seres humaninhos, na filosofia e na biologia, vivemos influenciando o todo com essas nossas mudanças.

O que fazemos aqui, afeta ali.

Uma ideia que vai do budismo ao efeito borboleta da metafísica de botequim.

Fernando Pessoa disse que dentro dele (e da gente, afinal) habitam multidões em homenagem a Walt Whitman que escreveu que as células dele são suas também.

O resultado é que, na grande ordem das coisas, desde pequenos aprendemos que nossa vida precisa ser insistentemente revista.

Para nosso bem e para o bem de todos.

Ou do todo.

É uma regra de sobrevivência da espécie tentar ser o melhor que puder ser como escreveram de Darwin a Harari.

Aí a gente foi educado para saber que essa reavaliação se dá através de uma infinidade de variáveis, que moram dentro de três dimensões: passado, presente e futuro.

O passado, o que fomos, nossas vitórias e derrotas, erros, acertos e o aprendizado que vem daí se não formos cabeça-dura.

O presente, que é onde estamos, nossos orgulhos e vergonhas. Nossa presença física no agora, resultado do que construímos.

E o futuro, ah, o futuro esse indisciplinado, que nos iludimos ao acreditar, que podemos controlar, ou que está escrito nas estrelas, na Bíblia, num mapa astral, na palma da mão, num bilhete de loteria ou num business plan.

O que nos dá força vital é essa ilusão de que conseguiremos ser melhores e, em última análise, nossos sonhos serão realizados e faremos a espécie evoluir.

Se você teve paciência de ler até aqui, vai entender porque eu acho que estamos “pós-angustiados”, por falta de palavra melhor.

O fato é que, numa dessas raras vezes na História da humanidade, o contexto atual tirou da gente a capacidade de fazer planos.

E agora, José?

Dos mais prosaicos sonhos aos mais ambiciosos objetivos, estamos temporariamente amputados de uma das três dimensões de reavaliação de nossas vidas.

O futuro, agora, não só a Deus pertence como sequer podemos fingir que temos livre-arbítrio.

Aquele show que você tinha comprado ingresso, a reforma do quartinho dos fundos, a viagem para o Vietnã, a faculdade que ia mudar a história da sua família, o novo emprego na padaria, tudo agora voltou a ser um projeto possível ao invés de uma meta provável.

Estamos órfãos de nós mesmos.

E isso, vou te contar... é bem pior que angústia.

O lado bom é que, diferente da angústia tradicional, essa nova depende pouco de nós.

Não é uma batalha entre dois polos.

É uma guerra da humanidade contra a incerteza.

E vamos vencer, claro.

Ao vencer, como estamos todos misturados, a vitória será nossa.

Quem sabe o novo-normal faça a gente sair da pós-angústia com uma folha em branco para novos sonhos e planos.

Porque, afinal, estamos sempre mudando.


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