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A primeira e a primeira vez de Zé Cássio Zanatta


Eu adoraria dizer que sou um gênio precoce. Mas não só estou mais longe de ser um gênio do que ir a pé de São Paulo ao Rio, como de prematuro tenho só um punhado de cabelos brancos. Sou um precoce ao contrário, lerdo de dar compaixão em lesmas, uma tartaruga com problemas nas juntas. Por isso, minha primeira experiência mais marcante com a literatura demorou: tinha uns 15 anos e ia para o Rio, não a pé, mas no bom e velho (mais velho que bom) Itapemirim.

Nota de esclarecimento: naquele tempo, um garoto de 15 anos ia para o Rio sozinho de ônibus, de noite. O único risco que corria era o de sentar ao lado de um crente e ficar ouvindo ladainhas por seis horas, ou relatos de uma avó que julgava que a humanidade devia estar interessadíssima nas conquistas de seu neto. Por isso, era imprescindível levar um livro. Se acontecia do passageiro ao lado ser um chato, era só abrir o livro para ser deixado em paz – um código que, até hoje, todos, inclusive os chatos, respeitam. Como eu tinha que fazer um trabalho para o colégio, aproveitei para levar como companhia “A morte e a morte de Quincas Berro D’Água”, de Jorge Amado.

Assim que o ônibus saiu de São Paulo, abri o livro e liguei a luz individual acima da poltrona. Já nas primeiras linhas, aquela lua tentando vencer o céu nublado de Guarulhos virou o luar iluminando a noite de São Salvador. O vento que entrava pela janela era a brisa que soprava do mar da Bahia, mexendo com os barcos e sonhos. Meus companheiros de ônibus desapareceram, só havia Quincas, Quitéria e os amigos bêbados a passear pela Dutra e pelo corredor escuro. E aquele desfile de comidas, temperos, pimentas, cachaças, os sabores que as páginas faziam surgir, humilhando o pastel frio com Coca-Cola da breve parada no posto.

Algum milagre acontecera. Seis horas de estrada viraram 24 minutos. Não percebi o pedágio, não me arrepiei com o frio de Itatiaia, nem reparei nas subidas e descidas, só nas ladeiras e sobrados da velha cidade. Nem com os chacoalhos a que o ônibus submetia os passageiros na descida da serra me incomodei.

Quando desci na Rodoviária, devo ter causado suspeita no policiamento: um sujeito estranho, de olhos esbugalhados, francamente em outro mundo. Como Quincas, morri e segui vivo, fui velado e passeei cidade afora atrás de esbórnias e serenatas.

Então essa era a capacidade de um bom livro: transportar alguém para um tempo diverso, de outras peles e almas. Grato, mestre Amado, o primeiro guia a me levar pelos caminhos sem placas ou direção da literatura. Depois vieram outros nascimentos e renascimentos, levado por Bandeiras, Drummonds, Rosas, Bragas, Nassares e tantos outros de terras estrangeiras.

Quincas deu seu berro pensando que fosse cachaça a água que bebia. Zé Cássio não berrou, mas ficou tontinho da silva. E nunca mais o pileque passou.

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