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A Sabettina de Paulo.

O trocadilho do título é infame, mas carrega um ‘diferencial’: Paulo Betti.


Convidado pelo Instituto de Estudos Avançados da Unicamp para um debate sobre o futuro, o ator militante abre a conversa reconhecendo - ‘Eu não sou muito da reflexão, eu sou mais Macbeth do que Hamlet’ - emendando - ‘Às vezes acho que o meu grande problema é esse, eu acho (uma coisa) e depois vejo que não foi correto’.


Independentemente do grau de reflexão, um ‘grande problema’ é não enxergar o que é ou não correto. Encrenca maior é, uma vez constatado o erro, não corrigi-lo.


Betti diz ver um futuro ‘possível’ para os brasileiros. Aos idosos de Copacabana, destina o mais sombrio: ‘Quero que esses velhos morram, entende! O mais rápido que eles puderem morrer, que eles morram, esses velhos que andam sem máscara por Copacabana!’


Indica como única saída a juventude pensante, apontando, em corujice explícita, o próprio rebento: ‘O meu filho estava ontem vendo o debate dos Estados Unidos, porque ele sabe que aquilo tem uma importância brutal pra gente aqui’.


Sem dizer qual seria tal relevância, abandona a campanha yankee e volta ao balneário para tratar da política local.


Lamenta que Chico Alencar não tenha sido eleito na última disputa pelo Senado, lembrando que ele saiu do PT para o PSOL antes do Mensalão e tinha a experiência de quatro mandatos de deputado federal. Entre saudosista e romântico, lembrou que às sextas-feiras Chico subia em um caixote de madeira para conversar com eleitores no Centro do Rio.


Fui aluno de História do Chico. Depois, estagiando em um escritório em frente ao famoso ‘Buraco do Lume’ assisti Vladimir Palmeira e, depois, o próprio discursando de cima do tal caixote. Fui eleitor de ambos, homens públicos reconhecidamente íntegros e, obviamente, lamentei a derrota do experiente parlamentar para Flávio Bolsonaro.


O jovem Zero 1 usou um caixote de ferramentas da Internet e bateu Chico sem sair da frente do laptop. Betti elucubra: ‘Se nós tivéssemos sido realmente bons na educação, será que... ’. Não, né, Paulo? Chico não teria sido eleito tantas vezes. E o FHC... e o Lula? Betti teve boa educação, leu a obra de Shakespeare e fez campanha para Dilma.


Ele atribui o tsunami de Jair e seus pimpolhos à ‘faca entre os dentes e ao sangue nos olhos’ das hostes bolsonaristas, que estariam se armando para, ‘depois de identificar, destruir o inimigo’.


Como dito de início, Betti já identificou seus próprios inimigos. E se ele anonimamente denunciar aos snipers da direita os velhinhos de Copa, dizendo que são comunistas da terceira idade? Afinal, a vida imita a arte. Macbeth, por exemplo, matou o rei e atribuiu o assassinato à guarda real. Betti poderia botar a culpa na milícia pela limpeza geriátrica.


Por fim, em tom alarmista, Paulo Betti adverte que os militares não aceitarão o resultado das urnas, perpetuando-se no poder, e arrisca uma reflexão hamletiana: ‘Não estou falando besteira gente, desculpe.’


Tá desculpado.

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