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A salvação da lavoura

Enquanto você está aí, preocupado com a pandemia, com o Bozo, com a economia, com o futuro, eu estou vivendo o que os americanos chamariam de “time of my life”.

Minha fazenda, quem diria, justo eu que sempre fui tão urbano, está indo de vento em popa.

Cada vez maior e mais bem equipada.

Antes do final de semana devo colher a primeira safra de trigo nos cinco campos que semeei com tanta dedicação.

Dá gosto de se ver.

Todo aquele amarelo-dourado balançando ao sabor do vento até onde a vista alcança, sob o céu tão azul que até dói no olho.

Fazenda Laranjal, chama.

Tenho ainda seis vacas e dois bois, de farra, só para produzir o meu próprio leite.

E dois cavalos, o Osvaldo e a Clarabela.

A vida no campo é outra coisa.

Nada a ver com esse inferno da cidade grande.

Ontem, por exemplo, passei o dia todo capinando e limpando o mato de uma clareira atrás da oficina de tratores.

Ficou lindo.

Gastei uma fortuna para deixar a fazenda assim.

Sorte que achei um hack para ter dinheiro infinito.

O programa chama Farming Simulator 19.

Tem para Mac, PC, Xbox e PS4.

Até para celular tem.

Uma beleza de realismo, vocês precisam ver.

Quando canso, partiu Los Angeles.

Lá posso desfrutar do conforto da minha casa cujo jardim faz Versalhes parecer o Parque da Água Branca.

Gosto de jantar com meus amigos só para saber as intrigas.

Se pá, vou para Malibu, na minha Ferrari.

Estou começando a sétima temporada.

Fiz bem de comprar a TV grandona, 4K, que deixa o Real Housewives of Beverly Hills muito mais realista.

Falando essas coisas, vai ter gente dizendo que sou um escapista, que estou tentando fugir da realidade.

Ou pior.

Podem achar que estou deprimido, ou mesmo ficando maluco nesse isolamento.

Bobagem.

Nem faço essas coisas todos os dias.

Nada disso.

Quartas e sábados tem megasena, então passo o dia todo calculando probabilidades, fazendo os jogos e imaginando o que farei com a dinheirama toda que vou ganhar.

Às 20 horas, assisto no YouTube o sorteio e assim que termina, me mando para a fazenda.

Quando acaba a luz é que são elas.

Nesses dias ainda bem que tem o Hubble, meu schnauzer, para bater papo.

Gente boa ele.

Me põe no colo até eu pegar no sono.

Boa demais essa vida.


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