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A serviço de quem?

Atualizado: Abr 29

Juízes não devem adiantar as decisões que estão por proferir, integrantes do Ministério Público não devem revelar pareceres de casos sob sigilo e um delegado de polícia não deve antecipar as linhas de investigação ou as diligências que irá adotar sobre tal ou qual suspeito. Isso está na lei.


Se o cidadão comum não deve procurá-los para obter tais informações, diz o bom senso que muito menos deve fazê-lo quem está revestido da autoridade de presidente da república.


Em seu discurso de sexta-feira, Bolsonaro afirmou que, da Polícia Federal, precisa apenas do ‘básico‘ que até hoje lhe foi negado: “um relatório do que aconteceu, em especial nas últimas 24 horas para poder bem decidir o futuro dessa nação".


Exceto por suas desastradas decisões, custa crer que desde 1° de janeiro de 2019 ele não recebe informações dos serviços de inteligência, valendo recordar sua declaração um dia antes da posse: “O trabalho de inteligência é dos mais importantes e sensíveis para a segurança da nação”.


Passou quase um ano e meio boiando no espelho d’água da ignorância e tomando decisões à deriva? Justamente um militar, cercado de militares de altíssima patente?


Muito mais difícil ainda, evidentemente, é acreditar que o presidente analisasse tais informações para formular políticas públicas de seu governo. Seria como imaginá-lo convocando a equipe ministerial ao palácio para um brainstorm sobre o impacto do último boletim do Valeixo na reforma tributária, no combate ao coronavírus ou no plano Pró-Brasil. Só que há algum tempo as reuniões ministeriais costumam ser meras aparições ao estilo “não me deixem só”.


Específica e objetivamente, Jair Bolsonaro só reclamou da inépcia da Polícia Federal em descobrir algo além da insanidade mental de Adélio e em descobrir se um de seus meninos pegou a filha de um vizinho miliciano.


Não que não seja importante saber como andam tais investigações, mas oras bolas, além de serem absolutamente irrelevantes para se traçar políticas nacionais, todas vêm sendo amplamente divulgadas. Tanto que ele as cita!


Para que serviriam, então, os relatórios diários de inteligência que ele nunca teria recebido, ou recebido “quase implorando”?


Oras bolas de novo, o timing da exoneração de Valeixo coincide precisamente com três (Zero 1, Zero 2 e Zero 3) eventos recentíssimos.


Confiram aí:


a) O Tribunal do Rio destravou o processo contra Flávio Bolsonaro, autorizando quebra de sigilo fiscal e bancário, no caso das rachadinhas com Queiroz;


b) O STF está prestes a receber da Polícia Federal o relatório que identifica os produtores de fake news, provavelmente comandados por Carlos Bolsonaro;


c) Também no STF, Eduardo Bolsonaro, que já disse que “bastava um soldado e um cabo” para fechá-lo, é investigado sobre os atos que pretendem concretizar esse seu desejo e, de quebra, a volta do AI-5.


Sejamos justos. A preocupação do presidente vai além da família, alcançando políticos, milicianos e empresários (cadê o patriótico pato amarelo da FIESP?) que formam a base de seu varejo paroquial.


Foi por isso que, ao saber que a Federal “estava na cola” de uma dúzia de bolsonaristas, ele respondeu a Sérgio Moro: “Mais um motivo para a troca (de Valeixo)".


Pode-se ser mais direto, mais explícito, mais eloquente? Daí, o Moro ter se recusado a exonerá-lo e Bolsonaro ter pensado: “Deixa que eu chuto o Valeixo, tá ok”.


A esta altura, não adianta Bolsonaro por o Papa Francisco no ministério da Justiça e o Dalai-lama no comando da Federal. A ilegalidade está cometida e sua motivação admitida.


Por isso, a decisão de Celso de Mello, fez referência à condição de alguém exercer a presidência “enquanto a bem servir”. Servir à nação.

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