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A tal da imunidade. E a tal da humanidade.

Atualizado: Ago 12


Depois de muito tempo, saí de casa a pé.

O mundo, apesar de tudo, parece existir.

No pouco mais de uma hora em que alternei entre correr ou caminhar rápido, cruzei com as meninas falantes, que também se exercitavam, com os sete operários que olhavam para dentro do imenso buraco onde apenas o oitavo escavava, cruzei com o ônibus e os passageiros solitários em seus pensamentos e seus smartphones, com a senhora que trocava a calçada pelo asfalto assim que me avistava, com os motoqueiros profissionais trazendo cubos de comida às costas, com o vigia que de dentro de uma cabine dissimulava a improvável sensação de segurança para aquele palmo de casas temerosas pelos riscos vulgares do velho normal.

Em comum, esse ítem básico dessa nova era: a máscara.

Tive um impulso de cumprimentar a primeira pessoa com quem cruzei.

Um homem que trotava na direção contrária.

Me senti igual a ele.

Ele usa máscara, eu uso máscara.

No que de mais importante podemos discordar?

Quanto tempo ele tem estado em casa, quantas angústias, dúvidas, perdas, inseguranças, ele, como eu, experimentou, até este ponto onde ambos chegamos - ainda vivos?

Ali, passando por mim, o senti livre, ao mesmo tempo em que eu desfrutava da mesma experiência.

E então refleti sobre o fato de que a busca por uma identidade comum, a aceitação social, a sensação de pertencimento é a mais fundamental das necessidades da raça humana.

Existir, antes de qualquer coisa, só é possível no coexistir.

E é através da existência do outro que nos damos conta da nossa própria existência.

Portanto, nossa melhor constatação sobre nós próprios, é a descoberta do igual: nós mesmos nos outros.

Do mais profundo "eu preciso ser aceito para viver", ou "minha cor, minha condição sexual, minhas crenças, me identificam, mas jamais podem ser razão para me excluírem" ao mais simplório "você também fala português?", em uma situação de necessidade de comunicação no exterior, nossa busca pelo que nos é familiar ajuda a aplacar nossas aflições e inseguranças.

Por isso alguns brasileiros gostam de se reconhecer em terras estrangeiras, donos de Harley Davidsons acenam uns para os outros, ou torcedores de um mesmo clube identificados por uma camisa, uma bandeira ou um boné se cumprimentam como se fossem amigos de décadas.

A sensação de algo em comum, um ponto pacífico entre duas ou muitas pessoas, nos aproxima, nos torna familiares, nos dá segurança, conforto, calor; certeza de acolhimento.

As discordâncias parecem virar secundárias quando o que nos une é evidente, transparente, indisfarçável. Por um tempo, todo o resto, aquilo que segue nos diferenciando, é secundário.

E nosso instinto fala mais forte.

Foi como eu me senti: unido ao resto do mundo pela máscara.

Meu Spotify tocava Cole Porter, You're The Top.

E eu sabia que eu não sou.

Não sou o Nilo, nem o Louvre, nem tampouco o sorriso da Monalisa.

E sou o cara de máscara, que se mistura com as outras pessoas de máscaras.

A igualdade é o início do reconhecimento entre dois de uma mesma espécie.

Depois é que nos perdemos.

Vem a necessidade de nos distinguirmos, a gana de nos destacarmos, a busca por nos individualizarmos.

Para o bem e para o mal.

E brigamos por tudo.

Por política, por sucesso, por dinheiro, essas coisas mínimas.

Só as grandes mazelas (e Copas do Mundo?) têm esse poder de nos unir novamente, de nos igualar em nossa desimportância, duramente posta em perspectiva diante da realidade imensa, infinitamente maior do que tudo em nós - e do que todos nós.

Não deixa de ser irônico ver que somos fracos e irrelevantes e que, justamente ao nos escondermos, mais nos parecemos uns com os outros.

Foi necessária uma máscara para parecermos iguais.

Para que se escondesse, ao primeiro olhar, até a cor da pele.

Ou o semblante que denota a idade.

Ainda o sorriso, ou a sisudez, que desvendam o estado de espírito.

A máscara é o aviso tácito do recolhimento à nossa insignificância, ao mesmo tempo em que é o crachá identifica a pessoa frágil: mulheres e homens reduzidos ao que lhes restou ser, em tempos em que faz pouca diferença ser qualquer coisa.

Evidente que o mundo ainda é o mesmo.

Eu não estou entre aqueles que pensam que ele vai mudar, totalmente, no fim de tudo.

Já não mudou.

Basta acompanharmos os noticiários.

Tampouco deixamos de estar divididos em castas, com claros privilégios para uns; o poder econômico ainda sendo o brutal divisor de águas, capaz de decidir entre a vida e a morte de quem o detém.

Seria cínico, se não fosse ridículo, não admitir, imediatamente, isso e muito mais.

Não é esse o meu tema, portanto.

Tampouco é de como os pobres, os pretos e os pobres pretos são, mais uma triste vez, os mais duramente afetados - antes e depois - em mais esta crise.

O que eu estou dizendo, se é que ainda me lembro o que eu queria dizer, é que por um momento nosso medo se escancarou ao nos esconder.

E que eu, debaixo daquela máscara, não passo de mais um que não consegue disfarçar o receio da doença, da dor, da morte.

Se não a minha própria, por sorte, a de tantos outros que já se foram.

No final, percebo, é tudo utopia tola mesmo, apenas.

Até máscaras já há diferentes.

Fashion, caras, sem noção ou, simplesmente, aquilo à que se prestam: pedaços de pano que nos afastam do temido mal que nos agarrou pelo pescoço e nos apontou o dedo bem no meio dos nossos olhos, cegos.

A epifania piegas me abalroou como da primeira vez em que eu vi a morte, ainda criança.

Ou como fui impactado na primeira vez que visitei, em Évora, a Capela dos Ossos.

Toda construída, como sugere seu nome, com fêmures, costelas, crânios, mandíbulas, ossos humanos, ela choca e faz pensar, justamente por revelar a inequívoca, desprezível e transitória natureza da matéria de que somos feitos.

“Nós ossos, que aqui estamos, pelos vossos esperamos”, lê-se já na entrada.

Angustiante e verdadeiro: cru e direto como poucas coisas.

Argumento eloquente do que já sabemos.

Que somos absolutamente iguais.

E como somos tão reincidentes em esquecer, foi que eu me permiti tergiversar.

Porque não quero me esquecer.

E espero que você se lembre assim que esse ainda longo processo deixar de nos afligir.

As máscaras que nos revelam são uma metáfora forte, um simbolismo tão gritante, que não podemos ignorar.

Porque não vai bastar escaparmos imunizados.

Temos que sair disto humanizados. O homem acenou de volta.


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