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A tal da imunidade. E a tal da humanidade.

Atualizado: 12 de Ago de 2020


Depois de muito tempo, saí de casa a pé.

O mundo, apesar de tudo, parece existir.

No pouco mais de uma hora em que alternei entre correr ou caminhar rápido, cruzei com as meninas falantes, que também se exercitavam, com os sete operários que olhavam para dentro do imenso buraco onde apenas o oitavo escavava, cruzei com o ônibus e os passageiros solitários em seus pensamentos e seus smartphones, com a senhora que trocava a calçada pelo asfalto assim que me avistava, com os motoqueiros profissionais trazendo cubos de comida às costas, com o vigia que de dentro de uma cabine dissimulava a improvável sensação de segurança para aquele palmo de casas temerosas pelos riscos vulgares do velho normal.

Em comum, esse ítem básico dessa nova era: a máscara.

Tive um impulso de cumprimentar a primeira pessoa com quem cruzei.

Um homem que trotava na direção contrária.

Me senti igual a ele.

Ele usa máscara, eu uso máscara.

No que de mais importante podemos discordar?

Quanto tempo ele tem estado em casa, quantas angústias, dúvidas, perdas, inseguranças, ele, como eu, experimentou, até este ponto onde ambos chegamos - ainda vivos?

Ali, passando por mim, o senti livre, ao mesmo tempo em que eu desfrutava da mesma experiência.

E então refleti sobre o fato de que a busca por uma identidade comum, a aceitação social, a sensação de pertencimento é a mais fundamental das necessidades da raça humana.

Existir, antes de qualquer coisa, só é possível no coexistir.

E é através da existência do outro que nos damos conta da nossa própria existência.

Portanto, nossa melhor constatação sobre nós próprios, é a descoberta do igual: nós mesmos nos outros.

Do mais profundo "eu preciso ser aceito para viver", ou "minha cor, minha condição sexual, minhas crenças, me identificam, mas jamais podem ser razão para me excluírem" ao mais simplório "você também fala português?", em uma situação de necessidade de comunicação no exterior, nossa busca pelo que nos é familiar ajuda a aplacar nossas aflições e inseguranças.

Por isso alguns brasileiros gostam de se reconhecer em terras estrangeiras, donos de Harley Davidsons acenam uns para os outros, ou torcedores de um mesmo clube identificados por uma camisa, uma bandeira ou um boné se cumprimentam como se fossem amigos de décadas.