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A tevê que ninguém vê.

Não bancamos apenas os mármores e os vitrais dos luxuosos palácios que, concretamente, sediam nossos poderes, e a folha dos funcionários que, supostamente, os servem. Executivo, legislativo e judiciário são também apetrechados com milionários penduricalhos.


Os mais visíveis (até por serem os menos vistos) são seus canais de televisão: TVs Justiça, Câmara, Senado e a mãe de todas as emissoras, a TV Brasil, da EBC (Empresa Brasileira de Comunicações).


A EBC foi criada em pleno lulopetismo, por medida provisória e sob manobra regimental de urgência urgentíssima articulada por Romero Jucá.


Com o tempo, se notabilizou como um conglomerado de emissoras públicas sem público. Sem público telespectador, bem entendido; mas com um cativo público mantenedor.


Com a internet, vieram os apêndices virtuais e mais cargos e gastos, sob o pretexto de se dar um upgrade na interação entre a população e as autoridades.


Uma ideia de jerico, baseada na ilusão de que o cidadão que já não sintonizava essas TVs, viesse a aderir aos seus sites de conteúdo chapa-branca ou às suas contas de Facebook ou YouTube para postar emojis nas lives de discursos, votações e julgamentos. Foi a miragem de uma travessia de um deserto analógico para outro, digital. Uma ideia de camelo.


Assim, a TV Brasil, que já foi chamada de ‘TV do Lula’ e de ‘Dilma News’, rasteja no ‘traço’ da falta de audiência, e a EBC se consolidou como meio de instrumentalização do dirigismo do governo da hora.


É fato. Para combater a ‘voz única da grande mídia’ pró-impeachment de Dilma, o diretor de jornalismo da EBC poliu a chapa e assumiu: ‘Eu dei voz aos que não tinham voz. Está tendo manifestação de estudantes no Rio? Vamos pôr no ar. Acampamento dos sem-terra? Coloca no ar’.


Essa jabuticaba multimídia não é obra, repito, de Jair Bolsonaro. O idealizador desse aparato foi - sentem-se - Franklin Martins.


Candidato, Bolsonaro prometeu que iria extinguir de vez a EBC. Eu curti. Passando ao segundo turno, cogitou privatizá-la. Tá bom, valeu um like. Eleito, não só a aparelhou como rebatizou a estação de ‘TV BrasilGov’, logomarca cuja única qualidade é a de revelar o que ela sempre foi: um canal chapa-branca com uma frota de carros pretos à disposição de seus dirigentes. De esquerda, de direita e - já tô dando ideia - do Centrão.


O que mudou de lá pra cá?


Bom, ao invés de um militante do MR-8, temos um general do exército no comando da EBC.


Quanto ao conteúdo, zapeando o controle remoto, descobri que o canal estreou uma ‘nova‘ série em março. ‘O Vigilante Rodoviário’, atração dos anos 60 da TV Tupi.


Apesar de disponível em diversos canais da internet, resolvi matar saudades e assisti um episódio chamado ’Terras de Ninguém’. Sinopse da trama: um grupo de paulistas engravatados tenta grilar pequenas propriedades rurais para realizar uma incorporação imobiliária. A certa altura um deles diz mais ou menos o seguinte: ‘Se houver algum caboclo, a gente toca fogo na roça dele’. O vigilante Carlos e seu cão Lobo têm que impedir os vilões.


Só não dou spoiler porque caí num sono profundo. Acordei imaginando o atual ministro do Meio Ambiente vendo isso ao lado do Stédile do MST. Ambos se merecem.


Pena que eu perdi a mais badalada transmissão. Em plena pandemia, a TV Brasil transmitiu, ‘com exclusividade‘, uma live de evangélicos, terraplanistas e simpatizantes pedindo bençãos e apoio ao Messias, que anunciou em primeiríssima mão que ‘o vírus está indo embora’.


Infelizmente, nem esse furo planetário parece ter melhorado a imagem presidencial, apesar de evidentemente ter sido uma nítida tentativa de promoção pessoal através da coisa pública, bancada com o nosso suado dinheirinho.


Ônix Lorenzoni, hoje ministro do governo Bolsonaro, argumentava o seguinte para obstruir a aprovação da MP 398/2007: ‘A TV pública será a TV do Lula, para fazer propaganda para o presidente!’.


Não sei se ele participou da live, mas duvido que tenha assistido.


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