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A volta à natureza.

Atualizado: Abr 5

Adoro autores obscuros, pouco conhecidos do grande público.

Não que não aprecie os clássicos.

Dostoyevsky, Tolstoy, Chekhov, Alan Poe, Faulkner, Kafka, Austen, Fitzgerald, Flaubert, Gabriel, Dickens, Hemingway, Lispector, Guimarães, Paulo Coelho (tô brincando) enfim, a lista é interminável e óbvia.

Por isso gosto de autores que você não conhece, porque aí eu posso recomendar o que não é evidente ou incontestável.

Há muitos anos, adolescente ainda, descobri através de um amigo que assinava o Clube do Livro, um autor francês, também cineasta e inventor de traquitanas para o cinema.

Foi com um livro chamado A Noite dos Tempos (Les Nuits des Temps), um romance bonito, quase impossível, em um mundo distópico no futuro, que, pela primeira vez, tive contato com René Barjavel.

Muito parecido com Théo, meu filho, eu também era daqueles que, uma vez apaixonado por algo ou alguém, saía catando tudo o que pudesse existir do tema ou da pessoa, até esgotar e secar a última gota da fonte.

Num tempo sem Google, foi nos sebos que eu saí comprando os últimos exemplares de cada livro editado em tiragens mínimas e nada populares no Brasil.

Foi assim que li Os caminhos de Katmandu, A fome do Tigre, Cinema Total (um devaneio inventivo, experimentos geniais, novos caminhos e o norte para o futuro do cinema escrito em 1944! Se você quiser ler mais, à respeito, recomendo um artigo, em inglês, escrito em 2018 pelo professor Alfio Leotta, da Universidade de Glasgow e que eu compartilho aqui: https://academic.oup.com/screen/article/59/3/372/5107136?guestAccessKey=ab0748cb-a6de-40e7-ab91-a86278074114), As Damas da Licorne, Que o Diabo o Carregue, O Grande Segredo, ufa.

Alguns eu deveria reler: agora com mais maturidade e menos voracidade juvenil.

Outros talvez eu devesse esquecer, preservando a emoção e o impacto que senti naquela época.

Mas um, sem dúvida nenhuma, mereceria uma terceira lida, agora que enfrentamos essa coisa invisível que está mudando concretamente as nossas vidas: "Devastação, Ou A Volta à Natureza" (Ravage, no título original).

Um livro de 1943: atual de doer.

Na orelha da edição brasileira editada pelo Círculo do Livro lê-se a sinopse que eu reproduzo.


"Estamos no ano de 2052...

Filho de camponeses do sudoeste, desta única região da França onde se cultiva ainda o "ar livre", François Deschamps foi para Paris a fim de terminar seus estudos. Tem vinte e dois anos, bom senso e um profundo amor à natureza. Assim, ele não se sente à vontade nessa capital super-mecanizada que conta com vinte e cinco milhões de habitantes, onde as máquinas são capazes de fazer uma volta à terra em vinte minutos, onde as máquinas tomaram o lugar dos homens e onde os homens não sabem mais ver, nem ouvir, nem se utilizar de suas mãos.

Mas eis que num dia de junho acontece a pane. A pane estúpida e inacreditável: de repente a eletricidade desaparece, deixando esse super-mecanismo em que se transformou a humanidade, tão indefesa quanto um bebê e à mercê do pânico.

Com poder e humor negro, René Barjavel conta-nos a história desse cataclismo do século XXI e a extraordinária epopéia do jovem François Deschamps que, com alguns homens e algumas mulheres de boa vontade, vai lutar desesperadamente para a volta às origens e o reencontro com a sabedoria da natureza."


Qualquer semelhança é mera coincidência, mas a verdade é que tenho pensado cada vez mais na história que começa meio curiosa, quase ingênua, onde de repente tudo simplesmente para - automóveis, máquinas, fábricas, aviões, foguetes, meios de comunicação, mas, por um tempo, as explicações técnicas e a organização social parecem capazes de garantir uma certa ordem, uma expectativa inicial de que tudo vai ser reestabelecido e, junto, a vida normal de 2052.

No entanto, como eu mesmo escrevi em algum post anterior por aqui, sobre como essas sensações são típicas em filmes e séries, onde de repente as emoções e os acontecimentos vão escalando e ganhando novas proporções, pouco a pouco as coisas vão saindo do controle, a ética começa a dar lugar ao salve-se quem puder, a lógica perde espaço e fica fora de moda frente ao único e primitivo instinto de sobrevivência, em Devastação você não fecha mais os olhos atentos nem a boca escancarada.

Não tem vírus na história - pelo menos não que eu me lembre - mas até presos em presídios de segurança máxima são tema do romance, se é que isso os faz lembrar de alguma coisa recente.

E mil outros spoilers que vou preferir evitar.

O meu ponto está feito.

A ideia original pressentida ainda nos anos 40 por um autor que falava sobre o esgotamento dos recursos naturais, os excessos da vida dissociada da natureza e a total dependência de tecnologias que conectam tudo e a todos ao mesmo tempo e que, se desligada, nos atira em uma realidade onde não temos mais a menor condição de sobreviver, me parece mais atual do que nunca.

Vou reler, portanto e queria contar isso para vocês.

Se quiserem, tentem encontrar um exemplar para chamar de vossos, já que hoje em dia até sebo a Amazon incorporou - vai vendo.

Depois a gente comenta o que cada um achou da leitura nesse novo contexto em que a gente está se habituando (?) a viver.

Se vocês acharem que não tem nada a ver, o livro é ridículo e a minha crônica mais ainda, pelo menos você conheceu um dos meus autores desconhecidos preferidos.

Não que eu não tenha outros, para encher o seu saco por aqui já já, ou uma outra hora.



Dados adicionais


À venda (sempre usado) em vários sites por preços que variam de 5 a 35 reais.

https://www.estantevirtual.com.br/livros/rene-barjavel/devastacao-ou-a-volta-a-natureza-/3740943523


https://www.enjoei.com.br/p/devastacao-rene-barjavel-35404485


https://www.portaldoslivreiros.com.br/livro.asp?codigo=2811965&titulo=Devastacao


https://www.portaldoslivreiros.com.br/livro.asp?codigo=2811965&titulo=Devastacao

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