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Altas e baixas.

Atualizado: 11 de Mai de 2020

Farto do corona, enfartei das coronárias. Estou numa UTI cardíaca.


Como desgraça pouca é bagagem, trouxe só uma muda de roupa e uma necessaire com escova de dentes, Kolynos e Jontex.


Na ambulância, sofri um acidente vascular cerebral. Vasculha daqui vasculha dali, quem procura acha. Quem mandou? Acidentes acontecem.


Não me preveni, essa é a verdade. Não acredito em ciência. Fui ao curandeiro, tentei uma erva, uma reza, um mantra, uma infusão aromatizada com Pinho-Sol. Recorri à macumba quântica num terreiro virtual indicado pelo André Gabeh.


Acabei aqui, mas não acabei. ‘Semi-acabado’ é o que acho que está escrito na tabuleta amarrada no meu dedão do pé. Fico tentando girá-la para me distrair.

Não tenho TV, nem Wi-Fi. Meu respirador chinês está desligado. Não preciso dele. Ainda bem, pois ele não funciona. A tomada não encaixa e a voltagem é outra.


A cada pessoa que passa por mim de máscara, fecho os olhos e ouço Darth Vader. Ofegantes. Todos. Doutores e pacientes.


Há muita correria. As enfermeiras trocam os entubados com a mesma sofreguidão das operadoras de antigas companhias telefônicas. Despluga daqui, pluga dali, quem é desconectado, morre. A linha cai.


Com um AVC e um enfarte não me preocupo com vírus, bactérias. Não tenho esse direito. Penso nos outros. Naqueles que não inspiram nada a não ser comiseração.


Uma horda de desplugados que estão ‘aguardando linha’, que partirão sem ter quem os pranteie.


Pragmático, bolo um plano. Um plano de resgate das carpideiras de outrora, que choravam a dor alheia.