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Aos 17.

Atualizado: Out 16

Aos 17 eu estudava para o vestibular.

Digo, cursava o pré-vestibular, já que estudar nunca foi coisa que eu tenha prezado fazer.

Já queria ser publicitário, mesmo sem entender totalmente o que significava a escolha.

Mas sabia que médico, como meu pai, eu não seria.

Nem engenheiro, para o qual meu irmão mais velho – e na sequência, o mais novo – se preparava para ser.

Aos 17, quando você é de família de classe média, filho de médico com dois irmãos que vão ser engenheiros, ainda tem o Direito, talvez uma Odontologia, mas para por aí.

Publicidade já era ousadia demais na Rua José Higino.

Aos 17 eu acabava de superar a paranóia de ser sequestrado.

Meu pai dizia que a gente era rico, então para mim a gente era.

E como naquele tempo sequestravam filhos de rico, eu certamente seria o próximo.

Me esgueirei pelas ruas, por quase dois anos, depois que um senhor de terno, simpático, se aproximou de mim no caminho da escola para casa e se apresentou como um ex-colega de faculdade do meu pai.

Como este não se lembrasse do suposto amigo e como se a foto da formatura também não o eternizasse, não havia outra alternativa justificadamente plausível senão o iminente plano do meu inevitável sequestro.

Não fui a final de campeonato, deixei de comer doce de abóbora com côco, dispensei cinema com amigo, jogo de bola na rua, tudo por promessa para não ser levado e, de lá, nunca mais voltar.

Nessa época, negociavam-se resgates já tendo assassinado os jovens ou crianças subtraídos de suas famílias.

Mas isso foi uns dois anos antes: aos 14 ou 15, talvez.

Aos 17 eu namorava a Márcia e também gostava da Glorinha.

E a Patrícia e mais outra menina cujo nome me escapa, gostavam de mim.

Meu irmão mais velho cantava o jingle de Kolynos, "Vai buscar sua glória...", para zombar de mim na frente da namorada que não desconfiava.

Aos 17 eu lia muito pouco, quase apenas aquilo a que era obrigado – lástima.

Mas ainda lia muito mais do que a totalidade dos meus amigos, somados.

Aos 17, treinava para ser profissional de futebol; jogar no Vasco e na Seleção Brasileira.

Era vocalista e guitarrista da Kaos – uma banda tão incoerente e instável quanto somos todos aos 17 – onde tocávamos de rock progressivo a uns maracatus quase-atômicos, engendrados pelo Marcelo, o baterista, o mais doido entre todos nós.

Tocávamos, literalmente, na garagem da casa do Marcelo.

Tinha dia que saía música; tinha dia que mal se compreendia uma nota.

Tocamos em público, mesmo quando não tinha público.

Aos 17 você sabe um monte de coisas.

Que somadas não dão 1% do que você precisaria; e do que um dia você ainda vai saber: se tanto.

Aos 17 eu achava isso suficiente para colocar banca com professor, com diretor de escola, com desconhecido na rua, com pai, com mãe, com irmãos.

Aos 17 consegui meu primeiro emprego.

Que me levou ao segundo e ao terceiro.

Mudei planos, atrasei outros, desviei e me reencontrei mais à frente.

Talvez não aos 17, mas a partir deles, comecei a entender o tamanho da vida que existe diante dos 17 anos.

Naquele tempo sonhava em ser adulto, em conquistar o mundo, em ser famoso, importante, ganhar respeito, dinheiro: e nunca ser sequestrado.

Hoje eu daria muito mais do que isso tudo para voltar lá, na praça em frente ao quartel da PE na Barão de Mesquita, local que era usado para tortura pelo DOI-Codi, mas que eu só saberia depois de não ter mais 17 anos, para me encontrar com o paspalho de 17 anos.

Encontrar, não.

Para ser ele de novo.





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