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As idades da memória

Tem umas coisas engraçadas que acontecem quando a gente é criança, não é?

Tenho até uma teoria.

Quando a gente é criança, não entende muito bem como é que o mundo funciona.

Depois de velho a gente acha que entende então fica metido.

Mas criança vai recebendo as coisas que acontecem e não se preocupa em explicar.

Ou em questionar se são possíveis ou não.

Só vão gravando na memória suas interpretações das coisas.

Não as coisas em si.

Pelo menos no meu caso foi sempre assim.

Por exemplo: minha avó italiana fazia pizza aos sábados para a família inteira.

Fazia a massa e tudo.

Meu avô, depois da pizza e do café, gostava de fumar um cigarro.

Minha avó odiava o cigarro.

Dizia que ele ia morrer.

Eu pensava que todo mundo ia morrer, mas isso é outra história.

Então meu avô, depois do café, ia até o portão da casa.

A casa ainda está lá, na Rua da Consolação.

Mas foi vendida e meus avós já morreram.

Enfim, quando meu avô ia até o portão fumar escondido, sempre me levava junto e ficávamos falando de futebol.

Ele era Palmeirense, claro. E eu Corinthiano.

Mas ele não ligava, nem nunca tentou me fazer torcer para o Palmeiras.

Até me levava nos jogos do Corinthians no Pacaembú.

Ficávamos no tobogã. Eu vendo o jogo e ele fumando em paz.

Uma noite de sábado, eu devia ter uns 7 anos, estava sentado na mureta da casa depois da pizza, com meu avô fumando ao meu lado.

Como eu era baixinho, olhava meu avô assim, de baixo para cima.

Era Lua cheia e eu reparei que a Lua tinha o mesmo tamanho da cabeça do meu avô.

Então eu vi, ao lado da Lua, uma explosão.

Vermelho, sabe? Como mini fogos de artifício.

Achei bonito aquilo.

Mas foi muito rápido.

Nem deu tempo de mostrar para o meu avô.

No dia seguinte, na televisão, disseram que a Apolo 13 tinha explodido.

Percebem?

Eu, criança, botei na cabeça que tinha visto a explosão lá no céu.

Ou poderia ser só uma brasa do cigarro do meu avô.

Depende da idade que gente tem para escolher no que acreditar.

Eu até poderia dar um Google e ver se a explosão da Apolo 13 foi num sábado.

Mas não vou dar, eu hein.

Outra vez estava assistindo Ultraman.

Aí um monstro invadiu uma cidade daquelas que quando a gente cresce descobre que eram miniaturas.

O monstro destruiu uma ponte.

Justo naquela hora, interromperam o programa para dizer que uma ponte no interior de São Paulo tinha desabado.

Em seguida acabou a luz.

Entenderam, não é?

Eu nem dormi naquela noite, convencido que o monstro estava chegando na minha casa.

Ou foi só uma coincidência.

Depende da idade.

Essas coisas acontecem sempre quando a gente é criança.

Eu acho.

Mas a história que mais me deixa maluco aconteceu durante o Brasil x Itália, na final da Copa de 70.

A família estava toda na sala, de novo na casa dos meus avós, em volta da televisão.

Era tanta gente que não tinha cadeira para uma criança sentar.

Então eu estava sentado no chão mesmo.

Um piso de tacos, com um tapete persa por cima.

Estava brincando com uma moeda, enquanto o jogo acontecia.

De tempos em tempos todos gritavam ou comemoravam.

Eu girava a moeda no chão com petelecos.

Ou jogava a moedinha para cima, daquele jeito que a gente faz com o polegar.

Então, aconteceu.

A moeda voou bem alto e caiu no piso de tacos.

Só que ela caiu em pé, entendem?

Não caiu chapada no chão.

Caiu em pé.

E ficou lá, parada.

Eu olhando para ela e ela para mim.

Achei incrível aquilo.

Como podia uma moeda cair assim, em pé?

Então olhei em volta, para ver se alguém tinha visto.

Olhei um por um.

Meus avós, meus pais, meus primos, meus tios.

Um por um, implorando por uma testemunha.

Mas estavam todos olhando o jogo.

Então um de meus tios, um que não gostava muito de futebol, tirou os olhos da TV e olhou diretamente para mim:

– Eu vi, Neto. Eu vi.

Vocês não imaginam a alegria que aquilo me deu.

Pensando bem, só de escrever me dá um pouco daquela alegria de novo.

Uma alegria de criança, mas que não depende da idade.

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