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As pernas do meu avô



Isso se passou no já distante ano de 1969. Meu pai tinha comprado um pequeno apartamento em Santos para a família passar as férias de verão. Quarto, quarto mesmo, só havia um, o dos pais; nós, os três meninos, dormíamos em camas de armar na sala.

Nesse ano, meu pai levou seu Ireno e dona Cattina, meus nonnos, para passar as férias conosco. É preciso situar que seu Ireno trabalhara boa parte da vida andando pelas bandas do Rio Pardo a cavalo, de chapéu e botinas. Só mais tarde arranjou um emprego no comércio local. Sua intimidade com o mar era, portanto, distante, respeitosa. Pois numa bela manhã de janeiro fomos todos à praia: aquela festa de guarda-sol, esteira, bola, baldinho... quando o nonno aparece na sala de calção e sandália. Todos saíram para pegar o elevador, eu e meu pai fomos os últimos a fechar a porta. Foi quando ele se virou para mim e disse, coçando a cabeça: “Tenho 45 anos, e é a primeira vez que vejo as pernas do meu pai”.

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