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Associação do Eleitólatras Anônimos.

Inseguro, como sempre acontece na primeira vez, Jorge se levantou e fez sua apresentação.

— Olá, meu nome é Jorge e essa é minha primeira vez.

— Olá Jorge! - todos respondem em uníssono.

O grupo se reúne toda semana, numa sala cedida pela igreja.

As cadeiras são arranjadas em círculo e cada um dos eleitólatras tem a liberdade de dividir sua história com o grupo, ou apenas assistir os depoimentos.

Estão ali por vontade própria, ou por insistência da família.

Jorge continua.

— Bom... meu vício...

— Não chamamos de vício Jorge. Isso de não saber votar é uma doença e não um vício, ok? - o moderador, um jovem com um tom de voz encorajador, o corrige.

— Doença... isso... desculpe. Minha doença começou ainda nos anos 80, quando votei no Maluf.

Alguns dos presentes, mais velhos, balançam a cabeça, como quem diz “sei como é... ”, cúmplices.

— ... foi ali que começou, acho. E foi piorando aos poucos. Fui fiscal do Sarney e... - Jorge reluta em admitir - ... e aí veio o Collor e... eu fui lá e votei.

Um sujeito cutuca o que está a seu lado e sussurra “eu também... também votei nele... ”.

Jorge, agora mais confiante com a empatia do grupo, continua:

— Votei no Collor. Eu sabia que era errado. Mas esse víc... essa doença é mais forte que eu... então eu já não conseguia mais me controlar. Passei a ter uma vida promíscua. Cheia de loucuras. Votei no Eymael, no Enéas, no Pitta... até no Zé Dirceu e...

Uma mulher, na cadeira ao lado de Jorge começa a chorar, emocionada.

— Votei na Dilma. Primeira e segunda eleições.

O grupo, acostumado com histórias de dor e sofrimento, mantinha respeitoso silêncio.

— Aí veio o Bolsonaro - faz uma pausa, olhando para um ponto no espaço, como se estivesse assistindo a si mesmo - fiz campanha de verdade. Comprei camiseta Mito 17, lembram? Aquela escrito M17O. Passei a cumprimentar com revolvinhos. Eu já não me reconhecia mais, sabe? Perdi amigos próximos, meu casamento acabou e...

Jorge começa a chorar.

O moderador se aproxima com uma caixa de lenços de papel.

Jorge se recompõe e continua.

— Minha filha, que é a coisa mais sagrada pra mim, disse que eu a envergonhava. Mas eu não pensava mais em nada. Só queria mais, mais, mais... entendem?

Todos entendiam.

Jorge faz uma pausa.

O moderador ajuda.

— Pode continuar Jorge... aqui estamos entre iguais, todos nós entendemos a sua dor.

— Eu não ouvia mais ninguém... as pessoas me bloqueavam no Facebook quando eu falava do presidente... amigos de infância me chamavam de Bolsominion, minha vida não existia mais porque essa doença...

— É mais forte que a gente... - um dos participantes completa.

Jorge faz nova pausa. A mulher que chorou traz um copo de água. Com as mãos trêmulas Jorge agradece, dá um gole e continua.

— O fundo do poço veio quando o presidente demitiu o Mandetta e eu sai na janela e xinguei o pessoal que batia panelas. Foi o dia que eu resolvi que minha vida merecia mais... que eu precisava largar esse... digo, curar essa doença e voltar a viver. Então me falaram aqui do grupo. Vocês foram muito importantes pra mim.

Todos agradecem.

— Tudo ia bem, eu achei que estava melhor. Então veio a história do Moro. Eu já não postava mais nada no Face e no Twitter e nesse dia eu quase fraquejei. Mas consegui segurar.

Eu senti que estava conseguindo me curar. Então... - não se contém e chora de novo. - enquanto o presidente fazia aquele discurso metendo o pau no Moro, minha filha chegou em casa e me encontrou sentado no sofá, olhos vidrados na TV. Ela parou ao meu lado e assistiu um trecho. Aí virou-se para mim e disse “Tá vendo pai? Quantas vezes eu te avisei?”

O grupo reage em conjunto, compreendendo a tensão do momento.

— Eu tentei... eu tentei, juro. Mas quando ela falou aquilo, eu perdi a cabeça de novo.

— O que você fez, Jorge? - o moderador pergunta sem esconder a urgência na voz.

— Eu disse ‘prefiro isso à corrupção, sua petralha dos inferno!’

Todos reagem ao mesmo tempo, lamentando.

— Eu cedi. Eu fracassei. - em total desamparo, se larga em sua cadeira e termina seu depoimento.

Alguns choram.

O monitor, que deveria estimular a discussão, sem palavras, apenas deixa escapar:

— Ô doença maldita.


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