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Banheiros separados.

Atualizado: Abr 16

Era o sonho de consumo do Mário César.

Odiava fazer cocô com platéia.

O pai chegava a fazer reunião de família em volta da privada.

O irmão mais velho do contava da escola e o pai concordava com cara de esforço.

- Mas... feez muuu... ito bem... meu fiiilho.

E largava um torpedo.

A mãe perguntava sobre a hipoteca da Caixa, a comissão que ele ganhava no mês e que era sempre uma variável que gerava apreensão, e o pai do Mário César a tranquilizava, franzindo a sobrancelha de coruja.

- Nãaao... se preocuuuu... pa, tá tuuu... do upf.... bem.

E lá aí outro big boy.

Mário César tinha ojeriza.

A simples imagem de alguém testemunhando seu momento íntimo já bloqueava qualquer necessidade fisiológica, ainda que fosse urgente.

Por isso, assim que casou com a Martinha, convenceu-a de que tinham que comprar um apartamento desses modernos, com varanda gourmet (que ele ligava a mínima) cozinha americana e, claro, banheiros separados.

Martinha já sabia dessa peculiaridade do Mário César.

Quando dormiram juntos pela primeira vez, num quarto de hotel em Santa Catarina, Mário César ficou rodando em volta da cama, logo de manhã cedo, feito curió preso em gaiola pequena.

Cabeça baixa, concentração zero, falava mais para dispersar o pensamento do que para fazer sentido.

Lembrava do Jô Soares explicando que enfezado era palavra que derivava de fezes; pessoa cheia de fezes.

Ele ficava enfezado quando estava cheio de fezes.

Quando não aguentou mais, correu para se vestir dos pés à cabeça e avisou Martinha que tinha que fazer qualquer coisa lá embaixo na recepção.

Nem tentou ser convincente.

Levou 10 minutos, não mais, e voltou outro Mário César.

Com o passar dos meses, e com muito mais intimidade, Mário César, acabou contando seu trauma para a Martinha.

Martinha entendeu, lógico, embora, não fosse pelo Mário César, ela própria pudesse ganhar carteirinha do clube da Porta Escancarada, fundado pelo falecido sogro.

Mas estava claro que Mário César não podia relevar nem superar problema tão atávico. Então combinaram mesmo de pagar mais caro ou ficar com apartamento menor ou mais longe, que fosse, desde que preenchesse a condição número 1 (sem trocadilho) do Mário César.

No final, nem foi mesmo um apartamento do tipo moderno, ou mais longe ou obrigatoriamente mais barato, o que compraram.

Conseguiram um de duas suítes, uma suíte master pequena e uma suíte pequena pequena.

Quebraram a pequena pequena e ficaram com uma master remasterizada, Mário César brincava, ficando para ele o banheiro menor da suíte menor.

Ele não precisava de espaço; só queria o seu espaço.

Ficou ótimo, todo mundo que visitava o apartamento deles achou.

E assim tem sido desde há apenas 6 meses, quando se casaram.

Aí veio o coronavírus e Martinha e Mário César se acantonaram no apartamento de dois banheiros separados e de lá não saíram mais desde o dia 7 de março - até antes do governador mandar.

Nem pra supermercado e farmácia os dois saíram até hoje.

Se dividem na cozinha, na limpeza da casa, nos pedidos pela internet, no comando do controle remoto da tevê da sala e em quase tudo que se refere à sociedade deles no casamento e naquele apartamento.

Com mínimas exceções.

Como a Martinha tem um monte de manias pra lavar a roupa da casa na máquina de lavar - que tem que ir em saquinho, tem que ir separada por cor e tipo de tecido, tem que ir com um tipo de sabão pra cada tipo de utilidade, tem que ser pendurada do jeito xis e nunca do jeito ipsilon, à não ser nos casos a, b, g ou w do livro de regras da lavagem perfeita da Martinha - então a Martinha ficou responsável única por lavar a roupa suja (sem trocadilho), enquanto o Mário César ficou com a louça, que ele lava e enxuga, e a limpeza dos dois gloriosos banheiros, ave Mário César.

Foi nesse ritmo de trabalho, misturado com camaradagem e alguma diversão que eles conviveram até ontem a noite, precisamente às 9: 52.

Martinha abriu um pacote de chocolate Bis e trouxe um para o Mário César, que ainda tamborilava algumas palavras no computador da empresa, que ele trouxe pra casa pro tal do home-office, que a Martinha também fazia, mas só em meio expediente, já que cortaram meio salário dela.

Ele aceitou a guloseima das mãos dela, sem usar as dele, apenas abrindo a boca e mordendo 80% do tablete.

Nessa hora que a Martinha considerou.

- Gordo (Mário César não era gordo), você não precisa lavar suas cuecas. Eu sei que você tá querendo me aliviar, mas não custa nada eu bater na máquina com o resto das roupas.

E daí também você não precisa ficar pendurando cueca molhada nos registros do seu banheiro.

- Mas eu não tô fazendo isso, Magra (Martinha não era magra).

- Num tá? Você não tá lavando cueca no banho?

- Não. Eu num tô usando cueca.

- ?????

- Desde o dia 7 de março que eu não uso cueca - fez um mês semana passada. Nem tênis, nem meia, nem...

- Mário César! Como assim você não tá usando cueca? Então você usa essas bermudas por 5, 6, 7 dias, sem cueca, e não lava as bermudas todo dia?

- Não, Magrinha, é que cueca incomoda demais, ainda mais com essa hérnia não operada que eu tenho, fica tudo apertado demais, o bichinho fica com a bochecha amarrotada lá dentro e, pra que? por quê? com qual finalidade eu deveria sacrificar o cara, só pra andar dentro de casa... ?

- Mário César, é uma questão de higiene. Se você usa cueca, você separa as partes íntimas do contato direto com a roupa. Se não, a roupa roça... ai Mário César, você sabe disso, não é possível. Que nojo.

- ...

- Meu Deus, nunca pensei que você fosse nojento desse jeito, que falta de educação, de espírito de convivência, arrastando a bunda suja nos sofás, nas cadeiras da casa, andando por aí com short mijado de último pingo mal balançado... sim, Mário César, eu tive 3 irmãos homens, eu conheço todas as conversas escatológicas... só achei que você era diferente.

- ...

Mário César agora está na quarentena da quarentena.

Desde ontem, precisamente às 9:55 da noite, três minutos depois que ele mordeu um Bis.

Ainda bem que o apartamento tem banheiros separados.

Esse onde ele está é só pra ele.






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