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Batismos

Atualizado: Abr 6

Saímos de casa cedo. Não queríamos enfrentar a fila do ferry boat. As lentas ‘Cantareiras’ (as barcas foram batizadas literalmente pelo destino: a Estação Cantareira) eram a alternativa mais prática para cruzar a Baía de Guanabara. Mais barato e divertido do que encarar 100 km de estrada para contorná-la por Magé.


Entre os opalas, corcéis, kombis e muitos fuscas alinhados na Praça XV, ambulantes vendiam o de sempre: um mate chamado Leão e um biscoito chamado Globo.


Era nossa primeira viagem para a região dos lagos. Estimativa: 6 horas. Como eu tinha uns onze, doze anos, pareceria muito mais demorado. E foi mesmo.


Até o trevo de Tribobó (que batizou a peça teatral de Maria Clara Machado, ‘Tribobó City’), seguindo o asfalto por Maricá, Araruama e Cabo Frio, uma eternidade. De lá para Búzios, nada de asfalto. Terra ou lama, dependendo do clima. Chovia. Chovia pra cacete. A prorrogação da eternidade.


Após 8 horas (ou 12?) chegamos na casa ao por do sol. Erguida no Século XVIII, integrava um conjunto colonial situado na Praia da Armação, assim batizada devido ao madeirame armado sobre a areia para extração de óleo das baleias, cujos gigantescos ossos eram enterrados na vizinha Praia dos... Ossos.


Armação dos Búzios. As imensas conchas que davam ‘sobrenome’ a até então acanhada aldeia de pescadores, vinham dar na areia enredadas nos arrastões, que mais do que arrastar, arrasavam tudo, sem trocadilhos.


Antigamente era descomplicado dar nomes às coisas. As vizinhas ‘Casa do Sino’ e ‘Casa do Poço’ tinham um sino e um poço. A nossa ficou conhecida como ‘Solar do Peixe Vivo’ porque Juscelino Kubitschek costumava frequentá-la com o amigo e dono, Osvaldo Penido, primo de meus avós.


Os adultos deixaram a gente e as malas dentro da casa e começaram os trabalhos na soleira feita de pedra e uma peça de dormente.


Batida de coco. Meu batismo de coco, celebrado clandestinamente. Enjoo e vômito. Esporro, castigo e um humilhante apelido: ‘Vomitinho’.


No dia seguinte, no mesmo horário, um vira-lata que passava em frente à soleira lambeu um gelo caído de um dos copos. Meu pai despejou um pouco da batida numa bacia, que acabou servindo de pia batismal para Bebum, o primeiro animal de estimação do Vomitinho.

Bebia bem melhor que o dono.

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