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Bolsonaro tem um plano.

É um enorme engano achar que o presidente Bolsonaro não tem um plano para lidar com a epidemia do coronavírus.

Ele tem.

Uma estratégia clara, baseada em razões claras, com uma logística de implantação também clara.

Você pode questionar a eficiência dessa estratégia.

Pode dizer que é uma estratégia que poucos países adotaram, mas está aí.

Trata-se da imunidade de rebanho.

Não é uma ironia com a "manada" que ainda segue o presidente.

Imunidade de rebanho é o termo técnico mesmo.

Segundo essa estratégia, se 70% da população for contaminada com o coronavírus, o problema está resolvido porque, a princípio, os 30% restantes não serão suficientes para disseminar o vírus numa razão que comprometa o sistema de saúde.

Como o pilar central do governo Bolsonaro é recuperar a economia, essa estratégia vem a calhar.

Quarentena vertical, para ele, é a solução.

Essa estratégia, apesar de nunca ter sido verbalizada oficialmente, ficou clara ontem na bizarra live entre Eduardo Bolsonaro e Alvaro Garneiro.

Jovens vão as ruas, a economia não para, 70% se contagia, velhinhos protegidos em casa e pronto.

Isso explica o horror do presidente ao isolamento.

E explica também sua obsessão com cloroquina.

De um lado, em sua equivocada estratégia, ele precisa do povo na rua para atingir os 70% imunizados o quanto antes.

De outro, ele vai usar qualquer remédio que apresente minimamente algum resultado para, em seus delírios, reduzir o número de mortes.

Mas o presidente é, de fato, limitado em sua compreensão de lógica, de estatística e de ciência.

Ignora o fato de que as mortes não se limitam mais a grupos de risco.

No caso da cloroquina, seu equívoco é o mesmo de quando saia espalhando o vírus cumprimentando seu rebanho (agora sim, manada) na porta do Palácio. Naquela oportunidade, quando confrontado, via apenas um lado da questão. Respondia que "um líder tem que estar onde o povo está". Ignorava (ou fingia ignorar) o fato de que poderia estar sendo um vetor de transmissão da doença (o que estaria de acordo com sua estratégia, alias).

Bolsonaro só consegue enxergar um mundo binário.

Para a cloroquina, alega que "para quem está mal, qualquer esperança vale". Diz isso sem compreender que muitos vão morrer pelos efeitos colaterais de um remédio que apresenta resultados ainda não comprovados.

Ou seja, toda a retórica do presidente é binária e irresponsável.

E se baseia nessa falácia de que o isolamento vertical vai resolver o problema da pandemia e da economia. Não vai.

Porque como a cloroquina o isolamento vertical também já se sabe que não funciona.

Dois países tentaram essa estratégia: Reino Unido e Suécia.

O Reino Unido voltou para a quarentena horizontal rapidamente, quando os casos começaram a explodir. E a Suécia apresenta hoje a maior taxa de letalidade do mundo (mortes x casos).

Por que não funciona?

Porque o custo é altíssimo.

Não existe, no mundo, um sistema de saúde capaz de lidar com 70% da população contaminada em tão pouco tempo. Por isso o Reino Unido voltou atrás.

E mais. Para conseguir esses 70% de contaminação, o Brasil teria aproximadamente 500 mil mortos.

Mas Bolsonaro, porque é autoritário e binário, não consegue enxergar isso.

Dois médicos desistiram de colocar seus CRMs a serviço dessa estratégia suicida, que vai contra todas as recomendações da Organização Mundial da Saúde.

Assim, o presidente se viu obrigado a colocar na pasta mais importante para lidar com a pandemia, um general. Um sujeito treinado a obedecer ordens superiores sem questionar.

Esse general, ontem, indicou mais nove generais para postos estratégicos do ministério da Saúde.

Ou seja, o presidente declarou guerra ao bom senso.

As consequências serão devastadoras.

Entre hoje e amanhã, graças às mensagens desencontradas entre a ciência e o presidente, devemos assumir o segundo lugar do mundo em número de casos.

Não há dúvida que somos o primeiro. Só não estamos lá porque testamos 15 vezes menos que os Estados Unidos, então vivemos nessa ilusão de que estamos melhores do que eles.

Bolsonaro faz tudo isso para preservar a economia, enquanto vai se tornando um paria na comunidade internacional.

Paria para não dizer piada.

Só não se dá conta que está, aos poucos, descolando o Brasil de todo o mundo.

Com o tempo, seremos isolados, horizontalmente, das comunidades econômicas do planeta. O Brasil, como alguém disse ontem, está se tornando a Coréia do Norte da Saúde.

Qualquer um que apoiar o presidente hoje, terá sangue nas mãos amanhã.

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