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Cafonização

Atualizado: Set 16

Na década de 60, uma Búzios com pouquíssimos habitantes, sem fornecimento d’água ou tratamento de esgoto, sem rede elétrica e difícil acesso, recebeu a visita de Brigitte Bardot.


A imagem da atriz reproduzida na imprensa foi a melhor propaganda para a celebrização do balneário, que passou a ser frequentado por ricaços brasileiros e europeus que adquiriram e reformaram casas de pescadores, e também por alguns hippies (acampava-se em qualquer praia e havia fartura de cogumelos alucinógenos nas fazendas às margens da estrada do Guriri, que liga Cabo Frio a Búzios).


A partir da badalação dos anos setenta cresceu o número de jet-setters, locomotivas e da leva de empreendedores argentinos e brasileiros. A Igreja de Sant’Anna virou point de casamento de socialites muito antes da Igrejinha do Quadrado de Trancoso.


O comércio deixou de ter foco somente no artesanato, os bares que nasciam como puxadinhos de depósitos de bebida e gelo se tornaram lounges. Qualquer anúncio de vendo ou alugo era rapidamente trocado por placas luminosas de boates, hotéis, boutiques de grife.

Pescadores largaram o mar por empregos de caseiros e mestres de obra, ou viraram simples senhorios num florescente mercado imobiliário.


Por mar, os lentos toc-toc de madeira deram lugar às frotas de táxi-boat e aos cruzeiros turísticos.


Pelo ar, a velha pista de pouso no terreno pantanoso de Geribá foi substituída no início dos anos 2000 por um aeroporto que recebe jatos executivos e aviões de carreira. E a cada platô de alguma enseada surge um heliponto.


Por terra, as trilhas até as praias mais isoladas como Ferradura, Forno, Brava, Tartaruga já haviam sido desbravadas, transformadas em estradas de cascalho e depois pavimentadas, como o acesso a Cabo Frio e outras cidades da Costa do Sol, de onde afluem os turistas do bate-e-volta.


Sem qualquer conotação econômico-social, o mau frequentador pode desembarcar de seu carro à gás, de um ônibus, de um transatlântico ou de um learjet. Hospedar-se no porta-malas de uma van ou na master-mega-suíte de um hotel cinco estrelas.


Ele chega na praia e obriga os outros a ouvir sertanejo, funk, axé, bossa nova, rock ou lounge music (vale pra qualquer gênero musical). Ele fala alto (principalmente pelo celular). Ele abre o latão de Brahma ou a Moet Chandon e descarta seu lixo na areia, na vegetação de restinga, nas vias públicas ou, pior ainda, no mar.


Dane-se se é um turista abonado ou um humilde local. O playboy e a patricinha com seus corpos sarados e trajes de banho da Cia. Marítima podem ser muito mais nocivos do que o suburbano enfiado em uma bermuda fake da Osklen aplicando água oxigenada nos pelos pubianos de sua popozuda.


A cafonização de Búzios nada tem a ver com posição social ou com o look (ôh terminho!) de quem frequenta suas praias, circula na Rua das Pedras ou faz selfie no colo da estátua da Brigitte Bardot.


Cafona vem do Italiano ‘cafone’ e, como ensina Deonísio da Silva, do Latim “Cafo”, nome de um centurião romano de hábitos rudes, grosseiros.


No Brasil a expressão ganhou um viés ligado à estética do mau gosto, da deselegância, da ostentação descomedida. Mas não da sujeira, pois farofeiros de qualquer nível podem ser educados.


Saindo da pousada para voltar ao Rio, ouvi a seguinte queixa de um par jovenzinho que estava justamente pensando em casar na minha querida Armação dos Búzios: ‘Ôh meu, tô fora. Antigamente só havia gente bonita aqui’. Respondi: ‘No São Paulo Fashion Week também’.

E, para provar que não sou bairrista, os convidei a uma reflexão: ‘Vocês já pensaram em Las Vegas? Lá é limpinho.’



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