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Carta aberta a um amigo bolsonarista.

Atualizado: Ago 4

Gustavo Ioschpe, por quem eu tenho imensa admiração, publicou recentemente, na Folha de São Paulo, um excelente artigo onde ele defende a ideia de que não seremos capazes de mudar as convicções dos que ainda apóiam Bolsonaro se seguirmos usando de sarcasmo, desprezo ou agressividade em nossa argumentação.

Conversei com o Gustavo no mesmo dia, pelo Whatsapp, elogiei o texto e me comprometi a seguir o seu conselho, concordando que não vamos de fato baixar esse piso (ou teto, sei lá) de quase 30% de apoio se não mudarmos o enfoque junto aos renitentes seguidores do presidente.

Foi assim que eu resolvi escrever essa carta aberta.

Para inaugurar um outro tipo de diálogo com eles.

Ou, eventualmente, para municiar os leitores de OsImpostores, que como qualquer um de nós, têm algum parente, conhecido ou amigo adepto da atual maneira de se comandar o Brasil.

Se esse for o seu caso, sinta-se, desde já, autorizado a copiar o texto e enviá-lo a quem quer que seja.

Nesta hipótese, apenas recomendo que o faça suprimindo o breve prólogo, que já vou encerrando aqui, de modo a começar só após o título, que repito abaixo.

Valendo?


Carta aberta a um amigo bolsonarista.


Eu entendo as razões que levaram você a votar em Jair Bolsonaro, mesmo sabendo que, como deputado, ele não tenha se destacado em sua atuação no Congresso Nacional.

Assim como Lula, Bolsonaro jamais primou por qualquer apreço pelo trabalho pesado.

Assim como Lula, Bolsonaro jamais utilizou o tempo vago para estudar, para se preparar e se aprofundar em algum tema ou conhecimento relevante que pudesse servir de insumo para mudar a vida política do país.

Assim como Lula, Bolsonaro sempre foi mais do boteco, da cachaça, do futebol, da conversa rasa, das metáforas pobres, das piadas machistas e preconceituosas, do dolce far niente.

Assim como Lula, Bolsonaro só ganhou notoriedade pela contundência de suas críticas à engrenagem do corrupto sistema vigente, por suas avaliações histriônicas sobre adversários ideológicos e por suas promessas de soluções, sempre polêmicas, para a mudança de tudo o que havia (e há) de sujo na vida pública nacional.

Um, como o outro, nunca foi de construir, preferindo a demolição sem planejamento, e o discurso óbvio para agradar as massas exauridas por “tudo isso que está aí”.

Por isso, assim como eu entendo perfeitamente quem votou em Lula, eu também compreendo completamente as razões que fizeram você votar em Bolsonaro.

Lula mentiu.

Descaradamente.

Prometeu combate à política asquerosa dos 300 picaretas com anel de doutor.

Prometeu dar fim à corrupção atávica, responsável por aprofundar, ano a ano, o já imenso abismo entre pobres e ricos.

Prometeu acabar com os privilégios das elites do Brasil.

E o que ele fez?

Montou o maior esquema de corrupção da história do país - talvez do mundo.

Não resolveu nenhum dos nossos problemas históricos.

Fez o governo dos sonhos dos bancos particulares e seus acionistas bilionários, da indústria, dos ricos e, de novo, dos políticos.

Por isso - principalmente por isso - você votou em Bolsonaro, eu sei.

Para dar um basta a tudo isso que está aí, como ele mesmo dizia.

E para extirpar do poder o PT: um partido transformado em capacho sobre o qual Lula pousava despudoradamente seus pés, e mãos, sujos; um templo religioso onde só eram aceitos fiéis xiitas aduladores de seu deus, inquestionável aos olhos de qualquer um que não quisesse experimentar a ira dos demais seguidores fundamentalistas.

Engolir sapos e histórias da carochinha viraram a única maneira de sobreviver, de não ser defenestrado e apedrejado na praça pública das redes sociais.

Para não ousar desafiar o intocável líder, qualquer ser pensante deveria fechar seus olhos para tudo o que se apresentasse como óbvio, como límpido e cristalino, sendo sempre melhor para a sobrevivência do militante, do membro do partido ou do beneficiário das benesses fartamente distribuídas entres os apaniguados do poder, recolher-se a um lugar de silêncio sempre que algo parecesse não fazer qualquer sentido.

Defender o indefensável, era do que eu e você os acusávamos, lembra?

Ainda assim eles teimavam.

Foi assim que, ao final de seus dois governos, Lula não teve qualquer pejo para impor ao partido e ao país uma candidata-poste, cuja missão número 1 seria garantir a devolução da cadeira presidencial, coisa que ele retomaria, o mais tardar, em oito anos.

No impedimento da concretização de seu plano no prazo estipulado, foi assim que ele também quis enfiar na goela dos remanescentes ainda-não-presidiários de seu partido, mais outro poste subserviente.

Um que não apenas lhe lamberia as botas, mas ainda se obrigaria a fazê-lo na sede da Polícia Federal em Curitiba, para onde viajaria, semanalmente, em busca da benção do padrinho presidiário.

Sim, eu entendo você.

Totalmente.

Você queria Segurança, Justiça, Educação, crescimento econômico e, sobretudo, probidade administrativa.

Cuidado no trato da coisa pública.

Enquanto Lula só queria o poder, mesmo que de dentro da cadeia.

E os petistas só queriam manter seus privilégios, um discurso cada vez mais inverossímil, uma narrativa cada vez mais estapafúrdia para defender a inocência de toda aquela gente deplorável.

E esse é o motivo dessa carta.

Para lembrar das razões que fizeram você rejeitar o mal que Lula e o PT fizeram ao Brasil.

Por tudo o que ambos jamais tiveram a decência de reconhecer.

Pelo qual eles jamais tiveram a humildade e a dignidade de se desculpar, ou fazer qualquer exercício de autocrítica.

E que os impedisse, por um bom tempo, de ter a desfaçatez de lançarem outro poste postulante e petulante para comandar o Brasil.

Coisas que fizeram você votar – dependendo do caso – de olhos fechados ou narizes tampados, em Bolsonaro.

Então, não se ofenda com essas perguntas que eu passo a fazer agora.

Minha carta é aberta, mas as suas respostas não precisam ser.

Você pode não respondê-las nem para si.

Ou podem, sim, cumprir a minha vontade de fazê-lo refletir sobre as razões, sobre o porquê de você, no meio do caminho, ter, aparentemente, se afastado dos seus objetivos à partir da eleição de Jair Bolsonaro.

Posso seguir?

Ok, vamos lá.

Quando Bolsonaro, que era o meio, passou a ser mais importante do que aquilo que você desejava para o Brasil, que era o fim que justificava até os meios?

Quando os problemas da família dele, e não os do país, passaram a ser prioritários para você?

Quando você começou a aceitar a autoridade de Bolsonaro para chamar uma pandemia global de "gripezinha", diferente do que você e eu concedemos a Lula ao chamar uma crise econômica mundial de "marolinha"?

Quando os filhos de Bolsonaro começaram a merecer um julgamento diferente e menos rigoroso do que aquele que você fazia dos filhos de Lula?

Quando você resolveu que Bolsonaro pode não saber de tudo o que acontece à sua volta, diferente de Lula que, evidentemente, sempre soube de tudo o que acontecia no partido, em sua casa e em seu governo?

Quando a Polícia Federal virou vilã em suas ações de busca e apreensão? Quando atuou contra Sara Winter, Allan dos Santos e outros aliados de Bolsonaro, ou quando visou José Dirceu, Genoíno, André Vargas e o próprio Lula, inclusive levado para depor sob prisão coercitiva?

Quando Fabrício Queiroz se tornou inocente até prova em contrário e Marcos Valério culpado sem sombra de dúvidas?

Quando você decidiu, sem margem para contestação, que Celso Daniel foi assassinado pelo PT - a mando ou com conhecimento de Lula - mas Bolsonaro e sua família não têm qualquer relação com o assassinato do miliciano Adriano, amigo mais próximo de Queiroz e sua esposa?

Quando você decidiu que a ignorância de Bolsonaro é totalmente diferente do "analfabetismo" de Lula? Ou de Dilma?

Quando você resolveu que Bolsonaro tem razão em querer destruir a Globo, mas Lula estava errado ao querer destruir a Globo?

Quando você começou a considerar normais os ataques de Bolsonaro à imprensa, sendo que condenava os planos de Lula para o famoso projeto de controle da imprensa?

Por que a Globo era isenta quando editava matérias quilométricas denunciando cada detalhe da operação Lava Jato, toda noite no Jornal Nacional, mas virou "comunista", "de esquerda", "vendida", quando passou a escancarar os escândalos e as barbaridades que envolvem o entorno de Bolsonaro? (Aliás, quando você deixou de se incomodar em usar o apelido de Globolixo, criado pelos petistas, os primeiros a quererem fechar a emissora?)

Quando você deixou de se irritar com quem dizia "e os outros?", sempre que você exigia Lula na cadeia e passou a dizer "e os outros?" quando ficam demonstrados os mal-feitos Flávio Bolsonaro no caso das rachadinhas e dos crimes de lavagem de dinheiro que proliferam na Câmara dos Vereadores do Rio?
Quando você passou a justificar a aproximação de Bolsonaro com o Centrão – os tais 300 picaretas com anel de doutor – o mesmo injustificável antro de políticos corruptos que foi base de sustentação de Lula?
Quando você decidiu ser complacente com a distribuição de cargos em troca de apoio político, tudo o que Bolsonaro prometeu exterminar?

Quando aparelhamento de Estado pela direita virou moralmente melhor do que aparelhamento de Estado pela esquerda?

Quando você passou a concordar com Lula e o PT sobre o caráter de Sérgio Moro?

Quando você aceitou se juntar a Lula e defender o cerceamento à independência da força-tarefa da Lava Jato, a coação dos acusadores com a blindagem dos acusados, e como definiu Augusto Aras "o fim do lava-jatismo"?

Quando você achou que era normal ter um ministro da Educação que chama Kafka de katfa, que não sabe falar nem escrever corretamente e que xinga professores, reitores e alunos, embora fosse implacável contra os estapafúrdios discursos da "anta", Dilma?

Quando passou a aceitar o acobertamento da viagem do mesmo Weintraub para os EUA, se utilizando de passaporte diplomático à que já não tinha direito e ganhando emprego no Banco Mundial por imposição do governo brasileiro; tendo se juntado ao coro dos inconformados com o golpe de Dilma na nomeação de Lula como ministro da Casa Civil?

Tendo gargalhado e ajudado a viralizar o vídeo em que Lula explica que a Terra é redonda, se fosse “quadrada ou retangular” talvez a gente não pegasse a poluição que está estacionada “lá embaixo” onde a gente acaba “passando”, quando você passou a achar normal tem um presidente (e filhos) que tem como guru um terraplanista?

Quando o STF passou a ser lugar de vagabundos? Quando condenou e prendeu José Dirceu e mais 24 criminosos do Mensalão ou quando passou a julgar ações contra Bolsonaro e sua família?

Quando o foro especial para Flávio Bolsonaro virou um direito inalienável, deixando de ser esconderijo privilegiado de bandido?

Quando chicana e protelação de prazos conseguidas às custas de muito dinheiro de honorários advocatícios viraram moralmente aceitas, embora não o fossem quando o advogado, então um canalha, era aquele do Lula?

Quando você deixou de dizer que "tá na cara que é bandido" e passou a dizer que tem que esperar o julgamento em última instância (ainda que seja a terceira, uma a mais do que aquela, a segunda, que você defendia para colocar Lula na cadeia)? Por que "lugar de bandido é na cadeia", mas lugar de Fabrício Queiroz - e de sua esposa, ex-foragida, que tem que cuidar da saúde dele - é na prisão domiciliar?

Quando você, que acha que Deus deve estar “acima de tudo”, passou a crer que gente morta durante a pandemia não tem importância, número de mortos defunto só existe para ser massa de manobra política, todo mundo que morreu “já ia morrer mesmo”, ninguém aqui é coveiro para ficar dando declaração sobre os mortos da Covid, ou que é engraçado Bolsonaro tripudiar sobre doentes e mortos perguntando "e daí?"

Quando você começou a acreditar que quem critica Bolsonaro é petista e "comunista" - logo você que ouvia de militantes petistas que todo crítico de Lula ou de Dilma era imperialista, machista e fascista?

Por último, mas não menos importante: quando você passou a admitir que fechar o Congresso e o Superior Tribunal, armar a população, adular o exército com aumentos desproporcionais e com cargos públicos (inclusive o Ministério da Saúde durante a maior pandemia do último século), nomear ministros com base em afinidade ideológica, e que dividir o país entre nós e eles, patriotas e anti-patriotas, igual a Lula, só é ruim na Venezuela?

Epílogo (aqui eu começo a tecer comentários, portanto, não leia se achar que isso desvia dos propósitos da carta aberta): defender o indefensável não é privilégio de uma vertente política específica.

É atitude comum quando há mais torcida do que lógica, mais abstrações e permissividade do que o entendimento factual da realidade.

É luz desconfortável para quem preferia a cegueira ao descortinamento dos fatos - e o apelo ao uso da lógica.

E onde há mais paixão do que razão, só há perdão para uns e ódio para outros.

Desaparece a moral, a ética, a busca verdadeira por uma solução.

O debate fica viciado, porque já não importa nada além da vitória dos argumentos, torturados, à serviço de um lado ou do outro.

Sobra o rigor seletivo, a espada da justiça para os nossos inimigos, as relativizações, a condescendência e os malabarismos intelectuais para justificar os injustificáveis absurdos do lado que defendemos.

Ou seja, tudo o que sempre caracterizou os petistas de ontem que, como no efeito Orloff, podem ter se tornado os bolsonaristas amanhã.

Então, não se esqueça, amigo bolsonarista.

Uma coisa é ser anti-petista.

A outra, que parecia bem diferente, é ser exatamente igual a ele.

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