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Caso no restaurante




Chegamos ao restaurante cedo, nem foi preciso enfrentar espera, logo nos acomodamos numa mesa no canto. Alguns minutos depois, reparei: uma mulher sentada duas mesas à frente começou a olhar para mim. A princípio, discretamente; depois, sem qualquer intenção de disfarçar. Com Beatriz e meus filhos ao meu lado!

Sou um homem miseravelmente tímido. Menino, já era assim. Além do mais, sou um homem casado. Amo minha mulher, minha família, tenho uma vida serena e feliz. Procurei então evitar a troca de olhares, mas cada vez que nossos olhos se cruzavam, o meu encontrava a mulher me encarando. Me dando bola, para usar uma gíria mais compatível com minha idade do que essa coisa de ficar flertando em restaurantes.

Era uma bela mulher, é preciso dizer. Dessas morenas bem brasileiras, luminosas, usava um vestido leve e florido, batom discreto e sorria com graça, e tinha a pele de quem parecia ter acabado de sair do banho. Era mais jovem do que eu, mas não tanto assim.

Pedi o prato de costume, talvez uma tentativa de me aferrar a um lugar conhecido, seguro. Mas era inevitável, não sei se simples curiosidade ou sei lá, mais constantemente do que seria prudente, eu voltava a encontrar o olhar da desconhecida.

A uma determinada altura, ela chamou a atenção da amiga ao lado para mim. Que desejaria? Uma aventura a três, todos numa banheira de espuma, com bolhas caindo pelo teto, vai saber, essas mulheres hoje em dia estão cheias de ideias, umas danadas. Homem é bicho bobo, basta um flertezinho para se achar e mergulhar nos devaneios.

À mesa, falávamos de coisas à toa. Meu prato não estava diferente do de sempre. Um pouco salgado, talvez.

Foi quando a moça e a amiga se levantaram para ir embora. Para minha surpresa, ela veio em minha direção. Clara e decididamente, veio em direção à mesa. Mas que descaramento. E agora, serei desmascarado, o que faço ou digo sem despertar um sentimento ruim em Beatriz?

Pois ela chegou em frente à mesa, parou, abriu seu sorriso bonito e disse:

- Oi, desculpe, mas eu estava reparando, até comentei com minha irmã: é impressionante como você é a cara do meu tio Oswaldo lá de Descalvado.

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