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Triste.

Atualizado: Abr 27

Às vezes a gente ri, porque o fardo é duro e pesado e, se a gente não expurga a tristeza com uma ironia, um sorriso, um sarcasmo que seja, a tristeza toma conta e gruda que nem craca na gente.

A gente ri, às vezes, mas é sério.

Às vezes a gente ri, mas é triste: muito triste estar aqui nesse equívoco que atende pelo nome de Brasil.

Às vezes também, por causa de tanta tristeza, a gente se esquece de como deveria ser bom, ser bonito, ser abençoado nascer ou viver nesse país, esse acidente geográfico no melhor sentido, responsável por criar esse estupor que prende a nossa respiração para cada canto remoto que a gente tem o privilégio de olhar.

Uma terra continental, cheia de luz, de verde, de água, de calor e sol, cheia de matas, de animais, de insetos e pássaros tão raros quanto esplendorosos, de rios e riachos, de cachoeiras, corredeiras, cataratas, quedas de água pura e resplandecente.

Às vezes a gente ri até de felicidade mesmo, porque tem um povo tinhoso, inventivo, engenhoso, povo engraçado, criativo, verdadeiro, solidário, pobre feito o diabo, de boa índole, quanto mais pobre for.

E as artes e os artistas?

Nossa música, nossos ícones, nossos Chico Buarques, Rubem Fonsecas, Caetanos, Gils, Djavans, e continue a sua lista aí, porque gosto não se discute e de discussão já deu pro meu gosto ultimamente.

E os cientistas e professores, tão humilhados, e tão capazes de perseverar e seguir sua vocação só pela vontade de ensinar e de aprender?

Nossos médicos, enfermeiros, profissionais sem saúde, sem apoio, sem recompensa e que nos salvam com muito mais afeto e solidariedade do que com dinheiro, respeito e condições mínimas para fazer por nós o que negam a eles.

O Brasil é celeiro de cineastas e arquitetos, de atletas descalços e engenheiros, de empresários disputados mundo afora e heroínas que se desdobram em dezenas de olhos, mãos, pernas e braços, para manterem os lares, os empregos, os sonhos, os filhos aos montes, os netos precoces, a chance de algum futuro fugidio, traiçoeiro, que teima em escapar geração após geração, sem que ninguém além delas, essas mulheres, pareça se ocupar de zelar por quem mais precisa.

Ainda assim a gente ri.

Às vezes a gente ri da tristeza.

Para não desistir, já que é gesto mais fácil.

E para não desistir é que eu me arrisco na escrita.

Porque a vontade de ir cuidar de outras coisas, de outros temas, é tamanha que respiro fundo, inspirando, expirando e me inspirando nesse tanto em que ainda precisamos nos agarrar.

Então, sem rir agora, hoje pelo menos, só escrevo a sério.

Esse libelo meio sem jeito, meio sem talento, mas que também quer ser levado a sério.

Chega, é o que grita o meu coração.

Basta.

Parem.

Não dá mais, nem um dia, nem um minuto, nem mais uma vez.

Todo esse país, toda essa gente, não pode e não aguenta mais.

Não é mais possível ver gente doente, gente morrendo, gente que nem sabe que está doente e vai morrer, pisoteada pelo desprezo, pela ganância, pelo despeito de quem deveria nos governar.

Não podemos mais aceitar qualquer nova ínfima demonstração de ausência de caráter, de vergonha, de interesse, de empatia, de amor pelo ser humano, especialmente pelo ser humano que vive no nosso país.

Não temos mais estômago, fígado, espírito para ouvir o que já ouvimos; para vermos o que já vimos; para sentir o que já estamos sentindo.

Não é de hoje a destruição do nosso projeto de nação, não vamos ser cínicos.

O trabalho vem sendo muito bem feito, há muitos e muitos anos.

Décadas, pode-se dizer.

Da esquerda para a direita, meia volta, volver, já fizeram de nós gato e coturno.

Já nos atiraram no esgoto da história, na latrina do destino, nas profundezas mais imundas dessa quase-inexistência.

Se retornamos, voltamos a sonhar e a ter esperanças, nunca terá sido por qualquer outra razão que não as anotadas acima - e as esquecidas também, porque não seria capaz de ser justo e me lembrar de todas as que merecem esse crédito.

Ainda assim, ainda que nossa larga experiência em fracassos premeditados por bem-sucedidos canalhas, nos tenha ensinado a relativizar mais uma torpe tentativa, arrisco dizer que nunca descemos tão baixo.

Já fomos reféns de organizações criminosas travestidas de partidos políticos, mas, sonhos tirânicos de famílias patéticas, coronéis pós modernos de calças de tergal e camisetas Armani, nunca pensei experimentar.

Hipócritas que invocam Deus atirando com os dedos no ar.

Cafajestes que falam em moral e nos "valores da família" e exibem seus AK-47 ao fundo da mesa do almoço dominical.

Escória que professa a construção de um novo Brasil, de uma "nova política", e odeia 24 horas por dia todo e qualquer brasileiro que ousa lhes apontar as barbaridades perpetradas pelo mais leviano espírito de destruição de tudo o que se refere ao pensamento, à arte, à cultura e, agora mais evidente do que nunca, à ciência - sem que me permita esquecer da incapacidade total de entender a diferença entre o público e o privado.

Nenhum de nós seria capaz de apontar, em uma prova de múltipla escolha, que um presidente da República diria em pronunciamento público, logo após ser confrontado pelas acusações mais sérias já ouvidas sobre um mandatário do Brasil, que ele foi perseguido pela imprensa que mostrou que a avó de sua esposa cometeu crimes de falsidade ideológica e estelionato, enquanto a filha, mãe da primeira dama, é traficante de drogas.

Menos ainda acertaríamos a questão onde a opção correta seria a que aponta que seu filho lhe revelou não saber o nome da infinidade de mulheres com quem teve relacionamentos sexuais, muito menos o de uma em particular, que viria a ser mencionada por ser filha de miliciano envolvido com a morte de uma vereadora.

Também não teríamos a menor capacidade para arriscarmos a letra certa do enunciado que questionaria que termo pouco usual seria usado pela primeira vez por um chefe de Estado em época de mortes por pandemia, escândalos consumindo a base de seu governo e a segunda demissão dos dois ministros mais populares de seu governo em apenas uma semana.

Escrotizar, seria a resposta certa, ainda que o meu corretor de texto insista em sublinhar o vocábulo me alertando que ele não existe.

E nada de fato parece existir quando tratamos do bando que se aboletou no poder.

Nem ministros de relações exteriores que desacatam povos e governos de parceiros comerciais, nem ministros da Educação que desfilam arrogância e analfabetismo atávicos, nem tampouco filhos que se apossam da agenda do governo, envolvidos até os pescoços com o pior da velha política e o mais escabroso dos novos tempos - de qualquer política - a hedionda prática da destruição de reputações, calúnias, crimes contra a honra e toda sorte de bestialidades através das fake news, impulsionadas, moderna e digitalmente, por uma avalanche de dinheiro não identificado.

Sempre ajudados pelo instinto ruim, a maldade e a selvageria dos mais renitentes defensores dessa política odiosa que se instaurou entre nós.

Às vezes tudo isso vira piada.

Vira meme, vira post, viraliza e nos faz rir.

Mas é tão triste, tão triste, tão triste, tão triste.

Posso acabar por aqui. Posso ir adiante.

Posso nunca mais voltar ao assunto, porque já dói de um jeito que me faz um mal pessoal que eu nem sei dizer.

Mas resisto a deixar tudo ao Deus dará, não dizer nada, não berrar a indignação que nos corrói.

Porque não podemos mais nos dar ao luxo de fracassar.

Não temos mais colchão para as nossas quedas.

Não há mais palavras possíveis no nosso obituário.

E como nada mais nos resta, nada, nada; nem uma honra violentada, nem um orgulho vomitado, nem um resquício de vergonhas ultrajadas, então, agora, só nos resta nos agarrarmos ao que poderia ter sido a nossa história, ao que saberíamos tão bem merecer como povo, ao que nos devem de dignidade como humanos, à consciência das nossas possibilidades em uma terra tão destinada à glória e repudiarmos essa última e fatal estocada que acabam de desferir no nosso peito, no coração do nosso país.

Chega, basta, deu, sumam, desaparecem, desencarnem, estejam presos, renunciem.

Fora, Bolsonaro. Fora, 01, 02, 03, 04, 05, zeros à esquerda em geral.

Fora, tudo o que gravita mediocremente ao redor de suas vidas.

Vidas das quais a gente, às vezes, até ri.

Mas que são tristes.

Repugnantemente tristes.




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