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Triste.

Atualizado: 27 de Abr de 2020

Às vezes a gente ri, porque o fardo é duro e pesado e, se a gente não expurga a tristeza com uma ironia, um sorriso, um sarcasmo que seja, a tristeza toma conta e gruda que nem craca na gente.

A gente ri, às vezes, mas é sério.

Às vezes a gente ri, mas é triste: muito triste estar aqui nesse equívoco que atende pelo nome de Brasil.

Às vezes também, por causa de tanta tristeza, a gente se esquece de como deveria ser bom, ser bonito, ser abençoado nascer ou viver nesse país, esse acidente geográfico no melhor sentido, responsável por criar esse estupor que prende a nossa respiração para cada canto remoto que a gente tem o privilégio de olhar.

Uma terra continental, cheia de luz, de verde, de água, de calor e sol, cheia de matas, de animais, de insetos e pássaros tão raros quanto esplendorosos, de rios e riachos, de cachoeiras, corredeiras, cataratas, quedas de água pura e resplandecente.

Às vezes a gente ri até de felicidade mesmo, porque tem um povo tinhoso, inventivo, engenhoso, povo engraçado, criativo, verdadeiro, solidário, pobre feito o diabo, de boa índole, quanto mais pobre for.

E as artes e os artistas?

Nossa música, nossos ícones, nossos Chico Buarques, Rubem Fonsecas, Caetanos, Gils, Djavans, e continue a sua lista aí, porque gosto não se discute e de discussão já deu pro meu gosto ultimamente.

E os cientistas e professores, tão humilhados, e tão capazes de perseverar e seguir sua vocação só pela vontade de ensinar e de aprender?

Nossos médicos, enfermeiros, profissionais sem saúde, sem apoio, sem recompensa e que nos salvam com muito mais afeto e solidariedade do que com dinheiro, respeito e condições mínimas para fazer por nós o que negam a eles.

O Brasil é celeiro de cineastas e arquitetos, de atletas descalços e engenheiros, de empresários disputados mundo afora e heroínas que se desdobram em dezenas de olhos, mãos, pernas e braços, para manterem os lares, os empregos, os sonhos, os filhos aos montes, os netos precoces, a chance de algum futuro fugidio, traiçoeiro, que teima em escapar geração após geração, sem que ninguém além delas, essas mulheres, pareça se ocupar de zelar por quem mais precisa.

Ainda assim a gente ri.

Às vezes a gente ri da tristeza.

Para não desistir, já que é gesto mais fácil.

E para não desistir é que eu me arrisco na escrita.

Porque a vontade de ir cuidar de outras coisas, de outros temas, é tamanha que respiro fundo, inspirando, expirando e me inspirando nesse tanto em que ainda precisamos nos agarrar.

Então, sem rir agora, hoje pelo menos, só escrevo a sério.

Esse libelo meio sem jeito, meio sem talento, mas que também quer ser levado a sério.

Chega, é o que grita o meu coração.