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Chiclete eu misturo com banana

Atualizado: Abr 7


Música e comida?

Tarantella e cantina. Acho que não.

E por que não trocar os músicos fantasiados e suarentos da cantina por Louis Prima e Kelly Smith?

Por que não Gumbo e Jazz?

Por que não feijoada com Coltrane?

Por que não moqueca de siri mole com Chico Science?

Por que não Thay-food com Caymi?

Cinema, novela das oito, nossos avós. A culpa é deles. Mas não só. A critica gastronômica culta de pomposos e rebuscados adjetivos nunca permitiu mais que um quarteto de cordas nos salões nobres da degustação.

Você já participou de uma Jam-Session mais alucinada que uma feijoada ou que o próprio gumbo? Laranja no feijão preto com couve e pé de porco: isso faria Coltrane e Miles pensarem.

Criar e improvisar sobre um tema. Existe melhor definição para o ato de cozinhar?

“Fusion” é uma das muitas linhas que hoje definem um estilo culinário. É o japa que mistura foie-gras no sushi, é o italiano do mediterrâneo que incorpora o leite de coco no seu peixe. E “Fusion”, também, foi o último significativo movimento do jazz. Mas alguém por aqui já se lembrou de citar Jackson do Pandeiro, Chiclete com Banana, em meio à uma degustação de “fusion food”?

Experimente, atentamente, comida japonesa com Thelonious Monk. Cada nota um sabor, minimamente vasto.

Justaposições, contrastes, contrapontos, bases insólitas que reforçam um tema clássico, alterações de andamento justificando o efeito final surpreendente. Combinações de texturas. Temperos, swing. Isso é música ou cozinha? Não é isso que os grandes chefs experimentam? E como é que um chef que mergulha nessa viagem pode aceitar um conjunto de câmara qualquer tocando a Primavera de Vivaldi nos salões de seu restaurante? Arrigo Barnabé? Também não, mas vale a pena experimentar qualquer disco do “Il Giardino Armonico”, com suas revisões arejadas e atrevidas da maneira de se interpretar a música barroca.

Um menu degustação complexo, irriquieto, desafiador: tente as Variações Goldberg com o Glenn Gould - o gênio que releu o aparentemente “imexível” Bach e mudou tudo.

Será que um degustador de vinhos, que consegue perceber trocentos aromas e sabores em um Bordeaux nunca se lembrou de Miles Davis em Kind of Blues?

Precisamos rever esta relação música/comida.

Experimente no próximo domingo substituir o indefectível Pavarotti ou o chato do Andrea Bocelli por Pino Daniele e Paolo Conte, mesmo que você esteja diante de um clássico da cozinha italiana. Mas se você é do tipo nostálgico, experimente o Louis Prima. Até a nonna vai se entregar ao swing deste ítalo-americano e irá dispensar a pílula digestiva.

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