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Como matar alguém sem parecer rude.



Yolanda e Aquino. Um casal de meia-idade.

Ele, editor, sanguíneo, de gestos largos ao citar os autores mais famosos. Riso fácil.

Gatólogo. Entusiasmo contagiante com o charuto a rodar entre os dedos.

Pantagruélico. Exalando entusiasmo e amor à vida. O rei do churrasco no fim de semana.

Ela, discreta, bonita em seus 47 anos. Esguia. Tímida. Amada.


Depois de 25 anos, o casamento começou a se exaurir.

Nada de traições. Apenas o tempo. O que Yolanda admirava - a exuberância do marido - começou a irritá-la. Como era possível alguém tão bem humorado logo às 7 da manhã?

E o olhar lúbrico para o frango assado? E o alarido insuportável ao telefone?

E o charuto? E o fanatismo pelos 3 tenores? E os gatos? E a picanha?

Ao repalmilhar sua vida, Yolanda tomou uma decisão. Contrariar Aquino. Ela seria o avesso do marido. A sua contradição. Mas faria isso de maneira suave. Passo a passo. Lentamente.


O editor e seus amigos escritores assinavam fichas no PT. Pois Yolanda transformou-se numa defensora intransigente de Bolsonaro. Fazia discursos elogiosos aos militares de 64. De repente, virou torcedora fanática do Vasco para desespero do cônjuge flamenguista. Declarou-se alérgica a gatos.

Um toque decisivo foi Yolanda tornar-se vegana. Naquela casa nunca mais entrou sequer um modesto corte de segunda. Em vez dos 3 tenores, rock pesado da Europa Oriental .


Aos poucos, Aquino perdeu o viço.Tornou-se sorumbático. Foi do fogo ao gelo. Emagreceu. Não mais reconhecia a sua idolatrada mulher. Murchou.

Definhou aos poucos para morrer suavemente de tristeza e melancolia. Puro spleen.

Yolanda assumiu a editora, voltou a comer carne, esqueceu do golpe de 64, revelou sua vocação pelo Botafogo, começou a fumar charutos e a namorar uma vizinha de 25 anos. Quanto aos 3 tenores todos os discos foram doados ao Orfanato Santa Izildinha.


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