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Covid19. Os números mentem. Só não sabemos quais.


Decidi escrever esse post porque tem me chamado a atenção o fato de nossos números de Covid19 não explodirem como imaginou-se, apesar de sabermos que existem distorções e que diversas cidades enfrentarão, nessas próximas semanas, o colapso de seus sistemas de saúde.

Então, como gosto de botar números no Excel, resolvi fazer esse exercício que divido com vocês, sem nenhuma intenção de ser alarmista.

Mesmo porque, estimativas são tão precisas quanto os dados que você imputar.

A cada passo vou tentar explicar porque não podemos levar o resultado como verdade absoluta.

Mas é, ao menos, uma tentativa para visualizarmos um pouco melhor o que está acontecendo de verdade no país.


Pois bem.

A Covid19 está em 187 países.

Ontem, o Brasil assumiu o 9º lugar em número de casos de Covid19, entre 187 países monitorados: são 125.218 casos e 8.536 mortes até agora.

Mas nossos números estão longe de representar a realidade.

Porque os números oficiais da pandemia são informados a partir dos dados oficiais de cada governo.

Números oficiais diretamente relacionados ao número de testes que são aplicados.

Evidentemente, quanto mais testes, mais casos oficiais.

E nós testamos muito, mas muito menos do que outros países.


Se olharmos a relação do número de casos para 100.000 habitantes, começamos a perceber essa distorção.

Veja essa planilha, comparando o número de casos oficiais para cada 100.000 habitantes no Brasil e na Alemanha, Itália e EUA.

Percebe? Salta aos olhos a diferença.

Que mágica, que segredo, que milagre estaríamos fazendo para ter apenas 59 casos a cada 100.000 habitantes, enquanto a Alemanha, a Itália e os Estados Unidos, têm números muito maiores?

A mágica é testar pouco.

Mas quanto menos do que os outros países nós testamos?

Aqui está o número de testes realizado por país para cada 100.000 habitantes:

Então vamos colocar mais uma linha nessa tabela para saber qual o percentual da população testada em cada país.

Apesar do percentual ser mínimo, podemos ver que a Itália, entre os 4, é o país que mais testou sua população. Assim, podemos concluir que desses 4 países, a Itália é onde os números de casos estão mais próximos da realidade.

Veja, mesmo assim, ter testado muito não mudou o altíssimo número de mortes naquele país. Suspeito até que foi ao contrário. Porque tiveram um crescimento descontrolado na taxa de letalidade, passaram a testar mais.

Mas a taxa de letalidade, que é a relação entre casos e mortes é um outro assunto.

Aqui estamos vendo apenas a relação entre o percentual de habitantes testados e o número oficial de casos.

Então a próxima pergunta dá até medo de fazer:

Se esses 4 países tivessem testado o mesmo percentual da população que a Itália testou, quantos casos poderíamos estimar que existem?

Note que é evidente que outros fatores entram em jogo aqui.

Como se trata de uma estimativa, para um resultado mais próximo da realidade, teríamos que levar em consideração não apenas o número de testes, mas fatores como saneamento básico, taxa de isolamento, educação da população, além de outras políticas de combate à proliferação do vírus.

Fatores que entre esses 4 países, infelizmente, prejudicariam o Brasil ainda mais.

Mas vamos em frente e fazer a conta.

Se cada um desses 4 países tivesse testado o mesmo percentual da Itália, quantos casos existiriam?

O número é assustador.

Sim. É difícil de acreditar.

Mas note, principalmente como a diferença entre o número oficial e estimado da Alemanha e dos Estados Unidos muda numa proporção muito menor que a nossa.

Por que?

De novo: porque a relação entre testes e população deles é melhor que a nossa, então o número oficial e estimados são mais próximos.

Por isso o presidente da Organização Mundial da Saúde disse que os países precisavam "testar, testar e testar".

Porque só sabendo o número real de infectados é possível saber como se preparar para salvar vidas.


Vamos, então, falar sobre as mortes.

Essa é a situação atual:

À primeira vista, nossa taxa de letalidade é razoável, comparada com a Alemanha, um dos países mais eficientes para evitar mortes.

E se você pensar que o número de casos no Brasil pode ser até 20 vezes maior, nossa taxa de letalidade seria uma das menores do mundo.

Infelizmente, isso também não é verdade.

Exatamente porque testamos pouco.

Como não são testados, os pacientes morrem e a certidão de óbito indica outras doenças, que foram consequências do corona vírus, coisa que os médicos sabem, mas não podem afirmar.

Uma das mais comuns doenças que assumem a culpa da Covid 19 não testada é a Síndrome Respiratória Aguda.

Analisando os dados de casos e mortes de 2020 versos 2019 da SARG, fica fácil notar essa distorção:

Só diagnosticados como SARG já teríamos mais de 2 mil mortes por Covid. Sem contar outras doenças que poderiam estar distorcendo o número de mortes pelo coronavírus.

Mas, e se aplicarmos a mesma taxa de letalidade atual ao número de casos que estimamos acima, isso daria uma ideia melhor de quantos brasileiros podem ter morrido de Covid19?

Estimar usando dados que também foram estimados é perigoso.

Afinal, a estimativa do número de mortos também depende de diversos fatores. Dos recursos dos hospitais, do acesso ao sistema de saúde, do número de médicos por habitantes, da taxa de ocupação dos hospitais etc.

De novo o Brasil sairia prejudicado.

Mas podemos fazer esse exercício, afinal, a taxa de letalidade oficial é efetivamente calculada usando o número de casos e mortes oficiais.

Mais uma vez, a diferença entre o número oficial é assustadoramente maior no Brasil do que para a Alemanha, Itália e Estados Unidos.

Ao invés de 8.566 mortes, podemos ter passado de 200 mil.

Enfim, tudo isso considerado, só resta torcer para que o ministério da saúde amplie, como prometeu o número de testes no país.

Não para atender a uma mórbida curiosidade.

Mas porque só com números mais próximos dos reais a população poderá ter a verdadeira ideia do impacto dessa doença e, consequentemente, entender a importância do isolamento.

Num país onde o presidente não compreende a gravidade do que estamos passando, subdimensionar os números apenas dá mais argumentos aos que pensam como ele e torna o risco ainda maior, resultando em mais mortes.


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