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Crônica boa é no Rio



Todo mundo conhece um carioca bairrista. Certo, eles já foram em maior número, hoje a coisa anda meio contida, talvez pelo tanto que a cidade anda maltratando sua gente. Quando eu era garoto, a coisa era feia. Não só para eles o Rio de Janeiro era o melhor lugar do mundo (e era quase verdade), como São Paulo era o que havia de ruim e sem graça (e isso não era não).

Para os cariocas da gema fechada numa casca de fanatismo, chopp bom era no Rio, vista bonita era no Rio, time bom, idem. Mulher bonita era a carioca, o resto, tudo canhão. Músico, escritor, artista, para ser grande tinha que acontecer por lá. Não adiantava vir com Bandeira, Drummond, Guimarães Rosa, Graciliano, Jorge Amado, Caymmi, Elis, Adoniran, Lupicínio, Guiomar Novaes, Pelé, Rivellino, Tostão, Portinari, Tarsila, Anita, Carybé: se não fosse carioca ou naturalizado, não prestava.

Havia alguns exageros evidentes, como dizer que mate bom era no Rio (a gauchada partia para a ignorância) ou que pizza boa era lá (os paulistas tinham esgulhos). E os locais, lascando maionese e catchup na mozzarela. Por algumas vezes quase a Itália declarou guerra ao Brasil por conta dessa barbaridade.

Mas nunca houve carioca mais bairrista que o vô Amândio. Vô Amândio era o avô da minha cunhada. Um português criado no Rio de Janeiro e ancorado em São José do Rio Pardo. Na verdade, era Amando, mas como todos na família insistiam naquele “i” ali no meio, Amândio ficou.

Ai do sujeito que dizia ter comido uma bela empada em Recife – vô Amândio logo sacava: “Humpf, empada boa é no Rio.” Se alguém reportasse alguma festa belezura na noite anterior, ele interrompia: “Que isso, rapaz? Festa boa é no Rio.”

Então, o bairrismo foi ganhando uma proporção tamanha que vô Amândio perdeu de vez a compostura. O Rio de Janeiro passou não só a ser o melhor em tudo, mas também o pior. Para o bem ou para o mal, o negócio era lá e fim de papo. Se alguém reclamava do trânsito na Marginal, logo vinha um “O quê? Congestionamento é no Rio”. Se o cidadão contasse que foi vítima de um assalto em Belo Horizonte, o homem batia no peito e dizia: “Ah, não: assalto pra valer é no Rio!” Poluição do mar, conto do vigário, torneio de bilhar, queima de fogos, gol olímpico, pileque de caninha, tudo era no Rio.

E nesse bairrismo no pró e no contra, vô Amândio virou uma figura folclórica. Um luso-carioca-riopardense de única espécie.

Mas o melhor vem agora. Vô Amândio teve um belo fim de vida: quando ficou viúvo, se sentindo sozinho em uma casa relativamente grande, chamou a família da empregada para ir morar com ele: a moça, seu marido, filhos, a turma toda. E a todos tratava como um avô, deu casa, pagou roupa, comida, levava para a escola, fazia festa de aniversário, comemorava formatura e, em troca, ganhou a companhia e o amor de uma nova família.

Não sei se tudo de melhor ou de pior vem do Rio. Há controvérsias. Mas que esse coração bom veio de lá, isso veio.

Talvez vô Amândio gostaria de saber que é lembrado. Talvez até elogiasse o texto. Mas no final, balançaria a cabeça para decretar: “Humpf. Cronista bom é no Rio.”




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