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De feromônios ao paraíso.

Outro efeito do isolamento é a carência de boas séries.

O tempo vai passando e quando você menos percebe está há horas vibrando com aquele programa que mostra os bastidores do aeroporto.

Sim. Eu sei que você também gosta.

Este final de semana, nessa busca incessante, assisti duas séries inspiradoras.

Uma é a clássica “De Férias Com o Ex”, sexta-temporada, na Amazon.

Se você ainda não teve o prazer (pegou?) trata-se de um irreality show da MTV onde uma matilha de lindos jovens são aprisionados numa casa para fazer o tempo todo aquilo que, no BBB, fazem escondido para dar audiência.

É sexo do começo ao fim.

Não o ato em si, que também tem, mas o foco, percebe?

Passam 24 horas por dia, as vezes mais, dedicados a seduzir e serem seduzidos por estranhos que acabaram de conhecer mas, para os quais, já jorram feromônios em profusão.

O plot twist é que a cada episódio mais um/a personagem é adicionado a essa complexa trama: o ou a ex de um dos participantes.

O dito ou dita cuja sai do oceano em câmera lenta e, por algum motivo que me escapa, cria imensa tensão no ambiente.

Grave seria se fosse o/a atual, penso eu sem entender a juventude.

Ex é ex, não dá palpite, sempre achei.

Mas no programa tudo gira em torno dos tais ex que estariam sempre a ponto de quebrar todo o cenário de tanto ciúme.

Na verdade, a tensão dura pouco.

Em poucos minutos os semi-vilões são, invariavelmente, fagocitados pelo moedor de carne de sedução.

Duas ou três cenas e já estão subindo pelas paredes da casa que transpiram luxúria e prazer.

Assisti a temporada inteira, confesso, não por ter sido fisgado pela trama, que é nula, mas porque precisava ter a certeza que todas as possíveis combinações de parceiros foram testadas.

Terminado esse cover de Buñuel, me dediquei à maratona de outro reality, na tentativa de me redimir.

Mergulhei de cabeça no “A Corrida Mais Difícil do Mundo - Desafio Ecológico”.

Uma corrida por equipes no meio da ilhas Fiji, onde o sofrimento é tanto que ninguém consegue pensar em sexo para desespero do seu ex.

Sério. Foram longe demais no heroísmo.

A corrida, as pessoas, a lama, o frio, o sofrimento são perfeitos, principalmente visto aqui do meu sofá.

E como se não bastasse o esforço hercúleo das provas em centenas de quilômetros de desafios, os participantes todos fazem a gente se sentir um lixo.

A antítese da série anterior.

Minto.

Na anterior também me senti um lixo.

Nessa, cada grupo representa um país e, além do esforço sobre-humano das provas, aos pouco descobrimos que os personagens não são apenas atletas.

Um grupo, revelam entre uma escalada de catarata e uma desabalada carreira de bicicleta vulcão à baixo, é formado por mães de recém-nascidos.

No outro, um senhor com Alzheimer e seu filho enfrentando essa jornada inspiradora.

Num terceiro, Navy Seals de sessenta anos sofrem mais que no Afeganistão.

E do lado de cá da tela, chafurdando um rondelli com presunto e parmesão, eu, o fatzo.


Foi quando tive uma epifania.

Uma hora são pós-adolescentes que se entregam ao cio.

Na outra heróis da vida real levando o corpo e a mente ao extremo num paraíso natural.


E eu aqui, da geladeira para o computador comendo M&M e ovinhos de amendoim.


Saudade daquele tempo onde as séries não metiam o dedo na cara da gente para nos humilhar.


Saudade de personagens normais como professores de química que produzem metanfetamina ou mafiosos que fazem análise.


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