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Diário do vírus - Capítulo 1

Atualizado: Abr 21

Novembro de 2019, China


Eu estava instalado junto à asa direita, admirando sossegadamente a curvatura da Terra. Pensava na aventura épica das conquistas e na desventura enciclopédica dos terraplanistas.


O céu parecia nublado, mas sem turbulências. Ao perdermos altitude para o pouso, percebi que não havia nuvens. A névoa cinza em suspensão era uma concentração de PM2.5, micropartículas poluentes que atacam as vias respiratórias, matando 5 milhões de pessoas por ano.


Diante de um assassino de 2,5 μm (milionésimo de metro) de diâmetro - daí o nome -, como não refletir sobre a insignificância de minha nano dimensão!?


De repente, um zumbido, o baque seco e a vertiginosa queda em espiral até o solo.


A nuvem agora é de poeira. Zonzo, rastejo em meio a fluidos e destroços, sem saber como sair da fuselagem. Não sinto dor, mas pressinto o pior, dado o forte odor de morte que me circunda.


As avarias provocadas pela varada de bambu foram graves e a aeronave foi mandada para um hangar. Não de reparos. Um hangar de morcegos mortos e feridos, pregados pelas pontas das asas sobre uma ensangüentada bancada de madeira.

No chão, sobre um plástico preto, eram descartados aqueles que não prestavam mais para consumo, lembrando as carcaças de aviões da Cruzeiro do Sul, da Transbrasil e da VASP que ainda vemos pelos aeroportos do Brasil.


Nas outras bancadas, jaulas de todos os tamanhos com ratazanas, escorpiões, centopeias, salamandras e até um dragão de komodo.

Tudo posto à venda de acordo com a preferência do freguês: vivo ou prêt-à-manger.


Como um Batman, o meu moribundo hospedeiro solta uma asa do prego, debate-se até livrar a outra e, antes de ser abatido, desfere um vingativo ataque com os afiados caninos contra o seu algoz. É a minha oportunidade. A conexão que não posso perder. Uma ponte aérea para o mundo.


Foi assim que iniciei minha epopeia. ano macabro mercado de animais silvestres de Wuhan embarquei nas células de um desumano chinês para assombrar a humanidade com meus insignificantes 120 nanômetros. Menor que o PM2.5, maior que Marco Polo


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