Buscar

Diário do vírus - Capítulo 2

Atualizado: Abr 21

Itália.


Ainda no macabro mercado de animais silvestres de Wuhan, assisti, impotente, meu açougueiro hospedeiro executar e eviscerar o majestoso dragão de komodo antes de, por 1.500 yuans, vendê-lo a um chefe de cerimônia vindo de Pequim para buscar a excêntrica iguaria.


Decidi partir com ele e me dei bem. Acabei em uma animada festa de casamento na capital. O lagartão empalhado decorou a mesa dos padrinhos Xi Jinping e a primeira-dama Peng Liyuan. Sua carne escura foi servida em baixelas de prata aos convidados, quase todos membros do Partido Comunista Chinês.


Luvas, só os garçons. Máscaras, ninguém. E olhem que circulei bastante.

Simpáticos os noivos. Lua de mel na Itália. Um giro pela Lombardia. Passeios, museus, degustações de vinho. Muita pizza, muito gelato artigianale. Por ironia histórica do destino, ao voltar da China, Marco Polo trouxe a massa e o sorvete para a Itália. Eu trazia outra coisa.


Em Roma já circulava na TV e nas redes sociais a notícia de que cidadãos de Wuhan estavam morrendo de uma estranha doença. Telefonaram, então, para o organizador do casamento. Aos prantos uma senhora atendeu dizendo que não podia falar naquele momento e desligou.


Preocupados, foram a uma clínica particular: COVID-19. Brocharam. Ainda bem que era o último dia da trip conjugal. Iam voltar à noite para Pequim. Eles. Eu queria aproveitar a oportunidade e conhecer melhor a Europa.


Encantei-me com a atendente do balcão da Alitalia que os orientou no check-in. Vi que ela também era aeromoça, um passe livre para esse viajante clandestino que, assim, decolou para Madrid antes, muito antes de contarem quase 20.000 mortos na Itália.

Guardo a doce imagem do casal de máscaras cirurgicas abraçado à sorridente mocinha da companhia aérea para uma última selfie.

Ah, por que a Espanha? Queria realizar um sonho mórbido de criança: conhecer a Plaza de Toros de Las Ventas, a mais famosa arena de carnificina do mundo civilizado.

125 visualizações5 comentários

©2020 by Os Impostores