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Diário de um Confinado #1

Vinte de março.

Primeiro sábado de quarentena pós coronagate.

Desbravo territórios ermos de meu apartamento em que não ia há anos.

Área de serviço, por exemplo.

Vejo uma portinhola atrás da secadora cuja existência eu ignorava por completo.

Muito pior do que isso. Por detrás da portinhola, ouço nítidos e próximos arrulhos.

Vou poupá-los do Google. Eu também não sabia, mas o nome desse barulho odioso emitido por pombos é esse mesmo: arrulho. Nome tão feio como o próprio bicho. Prefiro muito mais o grunhir dos porcos ou o coaxar das rãs.

Abro a portinhola e o quadro é de terror. Conheci pela primeira vez o que se chama de área técnica do meu apartamento. Uma micro-varanda onde as máquinas de ar-condicionado ficam empilhadas e mal deveria passar um pombo magro agora abrigava uma pomba roliça e feia.

E sob a pomba feia, três pequenos ovos feios.

Sim, em tempos de isolamento total, em que não recebo nem meus pais em casa, descobri-me abrigando uma família inteira de pombos.

Uns meses atrás recebi um vídeo mostrando um pombo batendo continência para o Putin. O remetente era um amigo terraplanista, que dizia que os pombos eram robôs da KGB infiltrados em todo o mundo para nos vigiar. E a maior prova disso era que nunca se via pombos bebês e tampouco ovos de pomba.

Meu amigo olavista, lamento desapontá-lo, mas vi com meus próprios olhos o enterro do anão, a cabeça do bacalhau: lá estavam não apenas um, mas três ovos de pomba.

Bati escandalosamente na portinhola, mas nada de Michele deixar o ninho.

Pois é, pegamos intimidade.

Batizei a pomba mãe com o nome da primeira-dama, pela forma com que gesticulava as asas, tal uma intérprete de libras. Não, nada a ver com a sua potencial habilidade para gerar filhos que só fariam cagar em nossas cabeças.

Dado o insucesso do escândalo, enchi um regador de água, aproximei-o da cabeça de Michele e, após um belo banho, ela finalmente saiu em revoada.

Foi apenas o tempo de eu achar uma luva de limpeza, colher os três ovinhos enquanto segurava a ânsia, quando vi Michele ao longe, voltando com reforços.

Eram ao menos cinco outros pombos. Provavelmente machos, já que maiores e mais assustadores e mais roliços.

Nomeei-os aleatoriamente de Jair, Flavinho, Dudu, Carluxo e Renanzinho.

Meu primeiro instinto foi o de arremessar os ovos na direção deles. Cruel tal qual um Ustra, queria vê-los sofrendo pelos parentes natimortos, para que nunca mais se atrevessem a voltar.

Mas sou um frouxo.

Tudo o que fiz foi embrulhar os ovos em oito sacolas de mercado junto com a luva de limpeza e jogar tudo rápido no lixo.

Fechei todas as frestas da área técnica com redes e até preguei restos de rodapé ao redor das grades, de modo que agora não passe mais nem um pardal.

Nunca mais vi Michele.

Mas volta e meia vejo pombos sinistros e roliços rondando minha janela.

E a cada arrulho que ouço me lembro daquele vídeo do bicho batendo continência para o Putin.

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