Buscar

Diário de um Confinado #6

Atualizado: Mai 13

Acordei há pouco, com um cheiro estranho no meu quarto, achei que era cigarro mas ninguém no apartamento de baixo fuma e parecia muito forte para ser de algum vizinho mais longe e só agora me dou conta de que em meu travesseiro há uma mancha preta de cinzas, parece resto de incenso mas mais escuro e eu nem acendi incenso ontem, mas não que eu tenha entendido bem apenas essa mancha, o que acontece é que não estou enxergando bem há alguns meses já e o meu oftalmologista me disse algumas vezes que não volta a atender antes da pandemia terminar, eu não sei como ele vive porque tem um consultório bem meia-boca e não parecia uma pessoa de posses, digo, com reservas suficientes para passar por tantos meses sem receita. Mas não acho meus óculos e isso me angustia porque não consigo saber a que horas acordei e eu realmente não faço ideia se são onze da manhã ou duas da tarde e se tivesse com meus óculos mesmo com os graus defasados eu conseguiria decifrar esse borrão no celular que parece mostrar um número um e um cinco antes dos dois pontos mas não é possível que já sejam quinze horas, o que explicaria essa enxaqueca de matar. Talvez sejam mais de doze horas de sono então, isso justificaria essa dor insuportável, mais do que o gin ruim que me sobrou no bar e que eu terminei ontem sem gelo e sem água tônica e nem nada, porque na minha geladeira não tem mais nada além de duas cebolas, um pão de forma vencido e metade de um queijo e é com isso que eu pretendo passar o resto do dia, portanto olhando por esse lado seria bom se já fosse o meio da tarde, de modo que eu poderia fazer uma única refeição e só ir ao mercado amanhã.

Estão aqui os óculos, enfiados no vão do sofá ao lado da garrafa vazia de gin e, que inferno, parece que são doze horas ainda, ou seja meio-dia só, não vou aguentar passar o dia inteiro com esse pão seco com cebola e meio queijo, embora não sinta fome e só náusea por causa dessa dor que me corta a têmpora ao meio, agravada por esse cheiro de fumaça e isso não é cigarro nem incenso, é fumaça mesmo. Cacete, a mancha no travesseiro é fuligem, dormi bêbado com as janelas abertas e agora cada vez mais tenho chuva de fuligem no meu apartamento porque há um aterro sanitário improvisado no terreno baldio na quadra de trás onde queimam o lixo dos hospitais de campanha ou melhor dizem que é lixo hospitalar mas meu oftalmologista garante que queimam também os corpos das milhares de pessoas que morrem diariamente em São Paulo desde o ano passado.

Eu não sei o que me angustia mais, se é essa perda da noção do tempo depois de tantos meses trancado em casa, ou serão anos, parece que minha irmã falou outro dia no grupo da família que já se vão dois anos desde o início da quarentena e enfim eu não sei o que é pior desse período se é essa coisa de não saber o tempo ou se é essa minha vista que piora mais a cada dia ou se é esse cheiro da queima do hospital ou dos corpos, devem ser corpos, que fazia dias que eu não sentia porque não abro as janelas há muito tempo desde que começou essa rotina de incineração mas ontem eu exagerei naquele gin ruim e acabei ficando com vontade de sentir o ar de fora ou seja lá o que vem de fora ou ainda vai saber se eu não fiquei com vontade de me jogar e de ser incinerado e de virar fuligem no travesseiro de alguém, isso não seria exatamente uma saída ruim dadas as circunstâncias atuais.

Agora o que faz ainda menos sentido é eu estar aqui tentando chamar o elevador para ir até o mercado porque não há como passar mais um dia com o nada que tenho na geladeira mas o elevador não se move como se estivesse desligado, o que é estranho porque há meses os elevadores só são desligados entre dezoito horas de um dia e dez horas da manhã do outro. E o que o porteiro me diz ao interfone é que agora já são dezoito e trinta e faz menos sentido ainda ou talvez explique porque eu não me dei conta de a janela estar aberta, era porque eu acordei e já estava escuro de novo, meu Deus, que absurdo tudo isso, ao menos agora eu tenho menos horas para esperar o dia de amanhã chegar e com isso precisarei comer menos, também talvez o pão e o meio queijo deem conta, o que realmente me faz falta é aquele gin ruim que acabou ontem. E o maldito oftalmologista também me faz uma estúpida falta, desejo sinceramente que se ele continuar com essa história de não atender que ele morra e seja queimado no terreno baldio aqui atrás e que eu possa ver suas cinzas entrando pela minha janela e repousando suavemente em meu travesseiro, o que aplacaria um pouquinho que fosse essa enxaqueca que me arrebenta qualquer resquício de esperança.

104 visualizações4 comentários

©2020 by Os Impostores