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Diário do vírus - Capítulo 4

Atualizado: Abr 14

Inglaterra.


Diversos cadáveres aguardavam, na Espanha, o embarque para seus respectivos países, onde ganhariam um funeral digno - se é que pode ser chamado de digno um velório solitário.


Ao lado do corpo de minha hospedeira italiana jazia o de um idoso inglês. Me pareceu um transfer promissor. Chegando a Londres eu me viraria.


Havia um porém. Apesar de transmissível post mortem, eu estava prestes a ser colocado em um caixão e enviado de volta a Itália.


Dei sorte. Os tufos de algodão enfiados nas narinas de minha hospedeira foram reutilizados no infeliz britânico. E, emaranhado neles, eu estava pronto para atravessar o canal da Mancha.


Em um morgue improvisado no aeroporto de Heathrow, abriram a urna e me retiraram do nariz do defunto antes de lacrá-lo em um novo caixão revestido de chumbo.


Misturado a outros rejeitos hospitalares, passei por algumas mãos. Algumas horas depois, estava assistindo TV na casa de um descuidado agente funerário, cuja contaminação não o deixaria desfrutar a prosperidade proporcionada pela pandemia ao seu fúnebre comércio.


Na BBC News vimos um sujeito louro, descabelado e histriônico exortando os telespectadores a “go about business as usual”. Até o pai dele apareceu numa live dizendo: “Se me der vontade de ir ao pub, irei ao pub”.

Quando soube que era o primeiro ministro britânico, me animei: “Just do it! É comigo mesmo, folks!”


Após flanar por pubs e parques londrinos, bater perna em Camden e atravessar a Abbey Road, fui visitar a famosa casa 10 da Downing Street.


E quem me aparece naquela porta negra e vem direto cumprimentar meu hospedeiro e outros simpatizantes? Sim, o louro descabelado e histriônico da TV.


Quando vi uma sóbria e simpática senhora vestida de rainha se dirigir a seus súditos -“Stay at home!” -, fiz força para não me comover e para continuar minha letal missão.


Com raiva, decidi aplicar um corretivo no tal Boris Johnson: uma semana internado num hospital público, com três dias de UTI sob respiração artificial. Hoje, domingo de Páscoa, permiti que lhe dessem alta. A ilha já tem cerca de 10.000 mortos.

Não sei se, agora, o pai de Boris mudará de ideia quanto a sair por aí e frequentar bares durante a pandemia. O filho, eu vi que mudou. Já está até enaltecendo o SUS local.


Num pub aberto clandestinamente, o já febril agente funerário se despede de um amigo que está para viajar para Nova York. Ao brindarem a pint de Guinness me dão a chance de migrar de um hospedeiro para outro.


Adeus Velho (e moribundo) Mundo.

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