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Diário do vírus - Capítulo 5

Atualizado: Abr 21

USA - Nova York


Eu acreditava que não encontraria hospedeiro pior do que aquele catarrento açougueiro do necromercado de Wuhan, onde iniciei minha jornada.


Contudo, nada se comparou às oito horas de voo alojado no pulmão daquele irlandês, entre o último cigarro por ele apagado em Londres e o primeiro aceso em Nova York.


Cercado de células cancerígenas, agarrava-me aos seus alvéolos tentando não ser ejetado pela tosse crônica que o acometia.


Eu o escolhi não apenas por causa daquele brinde de Guinness com o meu falecido hospedeiro inglês. Moveu-me um fato histórico: a ‘Grande fome’ da Irlanda, provocada por um outro microorganismo de nome estranho, o Phytophthora Infestans.

Em meados do Seculo XIX, esse fungo dizimou um milhão de irlandeses por inanição e provocou a emigração de outros tantos para a América. Os que não sucumbiram nos ‘coffin ships’ que zarparam de Dublin, ficaram em Nova York espalhando doenças, lotando hospitais e cemitérios.


Chegar ali de carona em um irlandês representava, portanto, um ‘resgate histórico’ a partir do qual eu, assim como outrora o Phyto, deixaria gravado meu nome na história desses tempos agitados do Século XXI.


Senão, vejamos.


Steve Jobs não viveu para ver o dia em que nenhuma Apple Store estaria aberta na Big Apple.


O cineasta Robert Altman também não durou para ver o Central Park transformado no cenário de seu impagável M.A.S.H: um vasto hospital de campanha (só que, agora, sem a menor graça).


Frank Sinatra não está aqui para ver sua decantada ’City That Never Sleeps’ em estado de narcolepsia aguda, caindo pelas tabelas.


Lou Reed teria que ressuscitar para ver o que significa ‘Take a walk on the wild side’ nesta Manhattan do coronavírus.

Pelo menos Andrew Lloyd Webber está entre nós vendo o seu Fantasma da Ópera interromper três décadas de encenação na Broadway.


Quem fez tudo isso? Quem é o bicho que apodreceu a maçã? Quem recolocou o ‘I Will survive‘ de Glória Gaynor no topo da parada da Billboard? Esse cara sou eu!


A única diferença com a grande depressão de 1929, é que, ao invés de terem que se atirar de arranha-céus, hoje basta aos suicidas saírem de casa e toparem com algum infectado.


Voltando ao meu bravo hospedeiro, antes de partir desta para a melhor, ele queria não um, mas dois tragos: um de cigarro e outro de whisky. Mas onde, se o prefeito e o governador de NY fecharam até o Starbucks?


Ora, se há instituição que sobrevive nos EUA desde a Lei Seca, esta é o ‘speakeasy’, como eram chamados os bares clandestinos dos anos 20.


E, em tempos de tamanha angústia, o serviço que prestam à população é, sim, essencial. Não digo por simpatizar com a ideia de Donald Trump de liberar o comércio, mas pergunto a você: o que diria um estadista da estatura etílica de Winston Churchill sobre tal medida restritiva?


Foi quando o meu irlandês se lembrou do Campbell Apartments, um velho bar disfarçado pelo sobrenome e malocado dentro de uma estação de trem, a Grand Central Station.


Ao entrarmos no recinto, estranhei aquela música e a algazarra. O local estava repleto de brasileiros. Caí no samba como se não houvesse amanhã, porque a cigana não leu o meu destino.


PS - as dicas de Nova Iorque são do guia Nelson Porto.

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