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Diário do vírus - Capítulo 5

Atualizado: 21 de Abr de 2020

USA - Nova York


Eu acreditava que não encontraria hospedeiro pior do que aquele catarrento açougueiro do necromercado de Wuhan, onde iniciei minha jornada.


Contudo, nada se comparou às oito horas de voo alojado no pulmão daquele irlandês, entre o último cigarro por ele apagado em Londres e o primeiro aceso em Nova York.


Cercado de células cancerígenas, agarrava-me aos seus alvéolos tentando não ser ejetado pela tosse crônica que o acometia.


Eu o escolhi não apenas por causa daquele brinde de Guinness com o meu falecido hospedeiro inglês. Moveu-me um fato histórico: a ‘Grande fome’ da Irlanda, provocada por um outro microorganismo de nome estranho, o Phytophthora Infestans.

Em meados do Seculo XIX, esse fungo dizimou um milhão de irlandeses por inanição e provocou a emigração de outros tantos para a América. Os que não sucumbiram nos ‘coffin ships’ que zarparam de Dublin, ficaram em Nova York espalhando doenças, lotando hospitais e cemitérios.


Chegar ali de carona em um irlandês representava, portanto, um ‘resgate histórico’ a partir do qual eu, assim como outrora o Phyto, deixaria gravado meu nome na história desses tempos agitados do Século XXI.


Senão, vejamos.


Steve Jobs não viveu para ver o dia em que nenhuma Apple Store estaria aberta na Big Apple.


O cineasta Robert Altman também não durou para ver o Central Park transformado no cenário de seu impagável M.A.S.H: um vasto hospital de campanha (só que, agora, sem a menor graça).


Frank Sinatra não está aqui para ver sua decantada ’City That Never Sleeps’ em estado de narcolepsia aguda, caindo pelas tabelas.