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Distopia.

Atualizado: Abr 18

Hoje disseram que em Paris estão testando uma nova vacina.

Não acredito mais nessas notícias.

Aparecem duas ou três vezes por semana.

Remédios milagrosos, vacinas.

Já vão dezoito meses desde que o presidente Eduardo Bolsonaro decretou o lockdown, criminalizando quem furasse o isolamento completo.

Eu nem tiro o lixo mais.

Tenho medo de encontrar algum vigilante no elevador ou na garagem.

Ouvi histórias que esses caras aparecem do nada em qualquer lugar e passam fogo, sem perguntar, quando encontram alguém na rua.

Então estou vivendo como posso.

A casa fede a lixo e comida podre.

Olho pela janela da varanda.

Nenhum carro.

Há mais de seis meses que não vejo um único carro nas ruas.

Nem pessoas.

Vivas pelo menos.

Daqui de cima consigo ver 3 corpos apodrecendo.

Um na favela do Real Parque outro no estacionamento da Decathlon e o terceiro, mais distante, do outro lado da Marginal.

Dei um nome para cada um, mas depois fiquei espantado com minha própria desumanidade.

Não digo que tenha me arrependido, mas me espantei.

Acho que a gente se acostuma com tudo e isso de não falar com ninguém vai transformando a gente em bicho.

Impressionante como um corpo demora para se decompor.

Nunca imaginei.

Passo boa parte do tempo na varanda onde o cheiro da cidade é menos insuportável que o de dentro de casa.

E gosto de olhar o céu, mais azul do que nunca.

Às vezes dou uma geral na bagunça, mas só para encontrar as coisas que perdi.

Tem roupa suja espalhada pela casa toda.

Não tomo mais banho há uns dois meses.

Não suporto o cheiro da água verde que sai das torneiras, desde que o serviço de reciclagem da Sabesp parou de funcionar.

Isso de ter luz só oito horas por dia também é insuportável.

Dizem que vão diminuir para seis, em breve.

Entendo que não tenham funcionários suficientes para manter o sistema funcionando.

Só me preocupa ficar sem internet.

Pelo menos posso ligar para um ou outro amigo, quando tem luz.

Quando não tem, as antenas de celular desligam também.

Cada vez tenho menos gente para ligar.

Quando escuto o barulho do telefone chamando mais de três vezes, sinto uma angústia enorme, não pela pessoa, mas por egoísmo, achando que terei menos uma pessoa para chamar.

Olha aí a desumanidade de novo.

Sem luz e sem internet também acaba uma das poucas formas de lazer que a gente tem.

Bem, quem dera lazer fosse um problema grave, quando mal consigo comer.

A ração semanal me enjoa.

Mas, pelo menos, é uma razão para abrir a porta uma vez por semana.

Não sei quem entrega.

Deve ser um vigilante.

Ele toca a campainha e espero dois minutos até que vá embora.

Aí abro e higienizo a caixa com o álcool em gel que vem colado do lado de fora.

Maldita comida nojenta essa.

E ainda vem pouco, principalmente porque tenho que dividir com o Hubble.

Cachorro não conta na quota de "moradores da casa" quando a gente preencheu o formulário da ração.

O que mais sinto falta é de rir.

Rir de piadas idiotas que a gente contava.

Sobra pouca razão para viver quando a gente não tem motivo para rir.

A Itália conseguiu conter a oitava onda de covid19.

Não é motivo para rir, mas é ao menos uma boa notícia.


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