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E eles, que vão à luta!

Acabo de saber que não vai rolar apresentação de fim de ano do meu afilhado, no jiu-jítsu. É uma boa notícia. Em 2019, o evento caiu exatamente no dia do amigo secreto de Natal, do meu escritório.


Ao invés de brindar e trocar presentes com os funcionários, sócios e estagiários, passei horas na calorenta academia onde treina o Jimmynho, na Barra da Tijuca.


O ar grave dos pais - incluindo o Jimmy - fez-me crer que a troca da faixa branca por uma amarela ou, sei lá, vermelha, equivalia àquele ritual de passagem aborígene em que as crianças são lançadas de árvores com cipós atados aos tornozelos, numa espécie de bungee jump tribal.


Jimmy pai fez capoeira, judô, caratê, akidô, boxe, kung-fu e, óbvio, jiu-jítsu. Sempre sustentou que esse pot-pourri de artes marciais forjou o seu amadurecimento equilibrado e disciplinado.


As crianças iam para o tatame por lotes, o que estendia a espera, fazendo com que muitos pais e/ou padrastos fossem aliviar a tensão no botequim mais próximo.


Jimmy me levou. Após algumas cervejas e regressões fantasiosas, os marmanjos contavam que até já tinham finalizado algum membro da família Gracie, com a providencial amnésia de não lembrar qual: Rickson, Relson, Rilion, Rock’n Roll ou Rambo Gracie.


Sem nenhuma façanha digna da ocasião, mostrei uma cicatriz que ainda carrego do lábio à base do nariz, resultado de uma tamancada que recebi em um longínquo carnaval no Atafona Praia Clube por ter paquerado a irmã de um remador local. E lá, amigos, rema-se rio acima.


Meu adversário tinha vinte e poucos anos e usou o tamanco de madeira na mão como se fosse um soco inglês. Eu, com dezesseis, usava um aparelho metálico nos dentes. Da combinação vocês podem imaginar o estrago. Jimmy havia conseguido se esconder.


Para a rodinha dei outra versão. Disse que cobri meu algoz de porrada, que a cicatriz foi resultado de um golpe de saca-rolha desferido por um segurança e que acabei o baile aos beijos com a garota.

Calculista, perguntei - ‘Não foi Jimmy?’


Jimmy virou-se para mim com aquela carranca de lutador durante a pesagem, mas mesmo espumando mais que a breja quente do boteco, teve que assentir com a cabeça. Sua turma passou a me olhar como se eu tivesse sido escolhido para apadrinhar Jimmynho, a partir de meu cartel de vitórias no octagon.


Fomos chamados de volta à academia. Começou. Pais pançudos e pais sarados soltavam urros motivacionais como ‘passa a guarda, filhão!’, ‘monta!’, ‘espalha o frango!’, tudo com um eloquente ’porra!!!’


Ao menor sinal de sangue ou de algum estalo ósseo, a histeria das pouquíssimas mães abafava os comandos desses ‘técnicos’.


Com um olho pregado no adversário propriamente dito e o outro olho nos adversários que os trouxeram ao mundo, os meninos se engalfinhavam, se esbugalhavam.


De repente, sentenciou um árbitro - Ippon!

Descontrolado, Jimmy se jogou em cima de mim, perguntando aos berros se eu havia filmado. Eu tinha. Ele, pai. Não o Jimmynho que, metido em um quimono, eu, com meus óculos embaçados, jamais conseguiria identificar.


Mostrei-lhe o que havia gravado. Ele viu, reviu, reviu de novo. Pediu-me que deletasse.


Voltando ao começo, apesar da pandemia, vocês não acham que está muito cedo para se cancelar um evento que se daria em dezembro?


Na verdade, eu creio mesmo é que nunca mais serei convidado para outro exame de faixa do Jimmynho.


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