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– E o vídeo, hein? Nitroglicerina pura? – Não. Hidroxicloroquina burra.

Atualizado: Mai 25

Antes de mais nada quero deixar bastante claro que eu considero este arremedo de governo o pior e mais repugnante dos últimos tempos, rivalizando apenas com os governos assassinos, fetiche do atual presidente, os governos de Lula, à partir da metade do primeiro, e os de Dilma, felizmente interrompidos antes que fosse tarde demais.
Portanto, na leitura deste texto, partam do princípio de que escrevo sem qualquer viés de simpatia pela escória eleita em 2018: muito pelo contrário.

Feita a ressalva, começo dizendo que não vi absolutamente nada que comprove juridicamente qualquer das acusações de Moro.

A rigor, no que se refere ao assunto levantado pelo ex-ministro, o video deve despertar algo como dois minutos de interesse - justamente aqueles dois minutos já amplamente vazados para a imprensa e longamente debatidos antes da liberação do video que veio apenas para atestar que as frases vazadas foram literalmente transcritas do video da tal reunião.

Como novidade, portanto, nada que obrigasse o presidente e seus defensores a mudarem suas declarações - muito menos que os desnudasse em alguma mentira clamorosa.

Em um dado momento Bolsonaro diz que "Eu já tentei trocar gente da segurança nossa, oficialmente, no Rio de Janeiro e não deixaram".

E imprensa e pessoas de bom senso garantiram que foi aí que ele mostrou que tinha interesse em interferir na PF.

Eu discordo.

Bom-senso não é prova; assim como também não o são a lógica ou as evidências.

A confirmação da minha ou da sua certeza, a nossa convicção de que o presidente "só pode estar falando da Polícia Federal" não procedem quando se trata de Justiça.

Alguns afirmam que ele jamais poderia ameaçar de exoneração até ministro, caso não conseguisse fazer a troca de sua segurança pessoal, já que ela fica a cargo da GSI, órgão que não se submete a nenhuma ministério, e sim à Secretaria de Segurança Institucional, comandada pelo General Augusto Heleno.

Vão além, lembrando que o presidente de fato trocou sua segurança pessoal um mês antes, o que então significaria que ele estava falando de outro tipo de "segurança" - a da PF, portanto.

Eu afirmo que não.

Simplesmente porque ser burro ou mentir para seus ministros não é crime.

Nem mentir para a Justiça na condição de réu, seria.

Portanto, Bolsonaro pode muito bem achar que Secretaria de Segurança Institucional é Ministério - ou tem status de - ou que o General Heleno é ministro, por enxergá-lo assim.

Problema é dele.

E se ele trocou a segurança um mês antes, em sua lógica doentia, isso poderia simplesmente comprovar que estava tão insatisfeito que, de fato, após meses de tentativas infrutíferas, finalmente trocou a turma toda.

E por que ele disse que não conseguiu até agora trocar?

Por que é mentiroso.

Bravateiro.

Porque quis dourar a pílula, se fazer de vítima, reforçar o ponto, mostrar que tem razão, dramatizar seu calvário, buscar empatia dos seus comandados, não faço ideia de porque ele diria isso.

Até porque, pessoalmente, tenho certeza de que ele estava falando da Polícia Federal.

Mas a minha certeza não interessa.

A não ser a de que essa frase não prova nada.

Esta nem qualquer outra que ele tenha proferido naquela reunião.

Se ele reclama de falta de informação, inclusive da PF (e não apenas da PF, registre-se), claro que isso é mais um indício de que a acusação de Moro pode ser procedente.

Mandar o Valeixo embora dois dias depois, idem.

Repito: PODE ser procedente.

Mais uma vez, pode também ser só uma coincidência.

Ou, no limite, até uma armadilha do ex-juiz.

Mas, muito antes, podia ser apenas um lamento recorrente de um déspota em potencial que se ressente de uma cláusula constitucional que lhe permitisse ter informações quentinhas da Polícia Federal em boletins de hora em hora, feito uma Tele-Sena.

Insisto: a lógica parece apontar para outra direção, mas a lógica, lógico, só faz o cheiro de queimado nos levar a buscar a fogueira. Mas pode ser que não haja fogueira.

Ou que no final se chegue a um fogão, perfeitamente legal, cozinhando.

Para isso existe a Justiça.

Neste sentido é que eu digo que o vídeo é quase inócuo, à não ser para que todos tenhamos tido a oportunidade - mais do que bem-vinda, diga-se - de assistirmos e ouvirmos com os nossos próprios olhos e ouvidos, ao que já se havia publicado sobre o tema.

Que, assim como antes já se discutia, não prova nada.

Vamos então ao segundo ponto sensível: a divulgação do vídeo em sua íntegra.

Na minha opinião, um dos maiores absurdos jurídicos praticados ultimamente.

Justamente contra quem acusamos, com razão, de desrespeitar todos os princípios fundamentais de uma democracia.

A razão de todo o processo, aliás, não é outro à não ser buscar a verdade sobre uma suposta tentativa criminosa de interferência em uma instituição de Estado, movido por interesse e conveniência pessoal.

Mas eis que o juiz Celso de Mello resolve usar de suas prerrogativas para recair justamente sobre o mesmo desvio.

Pode ter sido por corporativismo, já que um ministro patético ofendeu e ameaçou os 11 magistrados do STF, pode ter sido por viés ideológico, já que ninguém que pense neste país pode engolir mais um dia de bolsonarismo explícito; pode ainda ter sido porque julgou que representantes investidos pelo povo não respeitem a liturgia (não escrita) de seus cargos, no que se refere inclusive ao linguajar ou à possíveis outros desvios de caráter - como é o caso de Ricardo Salles, o inacreditável ministro que sugere que se aproveite a atenção do povo e da imprensa à covid-19, para enfiar-se uns projetos antipopulares na agenda do congresso - mas o fato juridicamente inegável é que nada disto é objeto da ação julgada pelo respeitado incensado decano do STF.

Se o juiz, como brasileiro, se sentiu indignado com o palavreado do chefe da nação, se se ofendeu pessoalmente com os xingamentos do Weintraub, se achou ridículo ver o Guedes dizendo que leu 10 livros mais de três vezes para contar vantagem para uma turba de ignorantes iletrados, a Damares sendo Damares, se o Moro entrou mudo e saiu calado, se Bolsonaro chamou uns de bostas, outros de estrume, se, se, se, se, nada justifica o abuso da liberação do vídeo em todos os trechos que em nada acrescentam em relação ao processo aberto pelo MPF.

O assunto vizinho ao assunto do processo não é o assunto do processo.

Celso de Mello está cansado de saber disso.

Ele assistiu ao vídeo quantas vezes desejou e tomou sua decisão, consciente de que ela nada tinha a ver com a razão daquele vídeo ter ido parar em suas mãos.

Ou seja: pensou, pensou e decidiu premeditadamente extrapolar de seu poder.

Foi tão ilegítimo quanto tudo o que se pretendia combater.

E se a repercussão sobre o que realmente se refere ao processo foi pífia, foi o periférico, o resto que tomou o vazio eloquente deixado pela ausência do impacto esperado sobre o que realmente interessava.

Provas disso são as expressões dos profissionais de imprensa que, como eu, tinham certeza de que iriam testemunhar a explosão de uma bomba atômica.

Mas ouvimos apenas um som de um estalinho molhado.

No que dizia respeito ao tema original, andou-se fazendo edições maldosas, malabarismos retóricos para jurar-se que urubu é meu louro.

Cortaram frases, refizeram o sentido de outras, juntaram desejo de sangue com sangue de verdade.

Bonner, no Jornal Nacional fez errata para dizer que Bolsonaro não afirmou que queria ser blindado por Moro, mas muito pelo contrário: que ele NÃO (ênfase do jornalista) queria ser blindado por Moro - uma pequena diferença, que jamais poderia ter passado na primeira fala.

Para quem acha que uma frase é prova de tudo, então essa em que ele dispensa qualquer tratamento especial vira quase uma evidência contundente, um atestado importante de uma boa conduta do presidente.

E a maior demonstração do quão bizarra foi a decisão de Celso Mello é que o tema que ocupou a maior parte de noticiários, de grupos de apoio ou de repúdio ao presidente, foi o periférico ao processo.

O palavreado e o ímpeto ditatorial do grupo de desvairados que comandam o país.

Nada efetivo e forte sobre o processo aberto pelo Ministério Público Federal.

E enquanto assistia ao vídeo eu buscava a tal bala de prata.

Não vi nenhuma, nem de festim.

Ao mesmo tempo, foi aumentando a minha convicção de que estava tudo errado.

Que nem politicamente a divulgação deste vídeo serviria à democracia, à justiça.

Ao contrário, só serviria aos interesses de quem defende Jair Bolsonaro. Porque ele não prova nada.

Um erro brutal de cálculo de quem se achou mais esperto; e acima da lei.

Que quis criar um estrondo e só conseguiu recriar um monstro.

Quanto mais eu assistia, mais tinha a convicção de que o bando de fanáticos reencontrava as razões para ter votado e para voltar a votar na aberração.

Nada do que ele disse naquela reunião o incrimina.

Tudo o que ele diz ali é música para os ouvidos de seus seguidores - inclusive os de quem o estava abandonando.

Nem sei porque ele próprio se desesperou com a possibilidade da divulgação do vídeo (ou será que, afinal, ele é um gênio: fingiu que seria seu fim, estimulou seus algozes a exigirem a divulgação total e assistiu de casa dando gargalhada com os amigos?).

Na minha opinião, se nada mais sério aparecer, Bolsonaro deu um grande passo para recuperar o apoio ao seu governo e um passo ainda mais importante para a sua reeleição.

Se reprisar toda noite no Horário Eleitoral está reeleito. E ainda economiza na produção dos programas regulares.

Tentaram nitroglicerina.

Conseguiram cloroquina.

Que, como sabemos, não só é inócua como, em alguns casos, pode matar.






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