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E quando tudo acabar?

Confesso que às vezes me pego pessimista, acreditando que estamos vivendo apenas aqueles primeiros 15 ou 20 minutos do primeiro episódio da série sobre a pandemia que começou roubando nossa vida como ela era e, enquanto sonhávamos com o dia em que tudo iria voltar ao normal, pum, uma sucessão de outros eventos e revelações começam a arrancar as pessoas das suas realidades, cada vez mais, cada vez mais profundamente, feito aquele alvo no mar arredio, que você mira mas nunca alcança - pior, parece que nada de costas se afastando sempre mais veloz, quanto mais você tenta tocá-lo.

Então, hoje temos um vírus, amanhã temos uma mutação dele, a economia destruída, pessoas famintas, presidente assassinado, hospitais tomados por gangues que exigem o atendimento dos seus familiares, amigos e comparsas, o exército e a polícia combalidos contando os seus mortos, os bancos quebrados com seus donos correndo para juntar algumas notas inúteis de dinheiro, supermercados saqueados, mortes por tudo mais, além do tal vírus que se reproduz como coelho na saliva da gente.

Aí é a lei do mais forte, talvez com espaço para a sobrevivência de um ou outro indivíduo inteligente, com talento para a liderança tirânica ou para a construção de uma nova militância religiosa, sei lá - não me encaixo em nenhum dos casos, então, acho que vamos precisar de alguém no meu lugar para testemunhar o resto da história.

Mas, como já disse, não é sempre que eu penso assim e a pandemia que vira Mad Max misturado com Walking Dead, não prevalece na minha cabeça por muito tempo.

A maior parte das vezes acredito que a maior parte das coisas (tirando, quem sabe, o assassinato do presidente, ainda que metaforicamente falando) não passa mesmo de bichinho esquisito dançando funk na minha imaginação.

Então começo a pensar no que tudo isso vai dar.

Pois saiba que, mesmo longe da hecatombe da primeira visão, minha segunda história também não é lá tão animadora assim.

Simplesmente porque eu entendo desse negócio apenas um pouquinho mais do que a nossa cachorra esparramada, a Emília, ou que o nosso genial comandante, Jair médico e louco, ele mais do que ninguém tem um pouco.

E baseado no meu parco conhecimento ainda não consegui compreender quando ou como tudo acaba.

A foto histórica do fim da guerra, o soldado beijando a desconhecida no meio da rua em festa, os tiros comemorativos de canhão, a loucura, a bebedeira, o hoje ninguém é de ninguém, a festa em cada esquina do mundo, não me parecem um desfecho razoável para algo que muito provavelmente irá embora tão sorrateiro e desconfiado quanto chegou.

Não vejo um dia, um marco, um momento, um grito decretando o fim disso tudo que está aí, ok?

Feito filme de terror, acho que uma hora vamos ouvir algum silêncio no escuro lá de fora.

Os mais corajosos vão colocar as cabeças para fora e espreitar, cheirar o vazio, ouvir a respiração do vizinho, ver se alguém grita de alegria ou de dor.

Dizem que o vírus é chinês.

Não sei, pra mim é mineirinho.

Vai ser tudo na moita, sem alarde, sem a certeza de que foi mesmo, garantido, confia em mim.

Se vier a vacina, bem, aí sim cada um que beije sua desconhecida na rua.

Um remédio para tratar dos doentes mais graves, também, já vale uma festa bem bacana.

O problema é que eu, pessoalmente, o impostor ignorante aqui, não enxergo essa possibilidade em um prazo menor do que o bagulho chato seguindo tocando o rebu, fazendo escarcéu, até o fim do seu fôlego viral.

Aí, daí pra frente, ou ele se modifica - e, bye-bye vacina que tava prontinha - ou pega um lencinho branco pedindo arrego e saindo de fininho, ridículo como sempre são todos os vírus e bactérias que nos matam ferozmente até o dia em que os dominamos e quase rimos de tudo o que passamos por aquele nadinha de cocô.

Mas aí, sei lá o que vai ficar, você me entende?

Vai ser agora mesmo, no outono?

No inverno, pra não sermos tão otimistas assim?

Vai ser num dia de verão, os relógios girando tantas vezes que já estaremos em março de novo?

E as nossas crianças: são elas que vão construir a partir desse experiência o tal mundo novo que, alguns acreditam, renascerá melhor, mais humano, menos poluído, mais solidário e irmanado?

Os adultos é que não serão, disso eu sei.

Essa gente, feito eu e você, já está muito viciada, muito mal habituada, exigente sobre não se mexer em nada, não se tirar nada do lugar.

A gente só está esperando o tal dia que nunca virá, para voltarmos à vida da qual já temos tanta saudade, apenas 20 dias depois de termos nos trancafiado em nossas casas.

Adultos, empresários, políticos, gente de sucesso, classe média, quem tem algum conforto, não muda nada.

Não se faz revolução de nenhum tipo através de gente que venceu na vida - ou que se apega demais a ela.

Por isso eu só acredito na mudança lenta, feita sobretudo pelas cabeças jovens, pelas crianças, pelos que estão vivendo isso agora e que ainda terão muitos anos pela frente por viver.

Eles mal vão ter que pensar que estão mudando algo.

Tudo vai ficar instalado no DNA, feito atualização de app.

Vai ser natural viver de um jeito mais simples e mais humano.

Vai ser óbvio.

Porque é.




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