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Era uma vez em Paraty

Comecei a tirar meu sustento de sustentações: orais e por escrito.


A advocacia, porém, não era tudo para mim. Faltava algo, sabe gente? Aquele ‘livre pensar’, aquela coisa de dar asas à pena, sem as amarras de códigos, decretos e, principalmente, do juridiquesmente correto.


Recobrar o prazer que nos dava a professora de português quando, na aula de redação, anunciava: ‘Hoje o tema é livre’.


Primeiro, a hesitação da múltipla escolha infinita. Em seguida, a checagem prévia com o coleguinha CDF, de que teria algo minimamente interessante a contar, deixando escapar: ‘Vou escrever sobre golfinhos’. Ok!


É o check-in para uma viagem sem itinerário, com bifurcações, trifurcações, atalhos, avanços de sinal, marchas à ré, quebra-molas, enguiços até a deliciosa banguela da ladeira abaixo dar em um ponto final ou te esborrachar num beco sem saída.


Ainda não existia a rapinagem dos pardais da estrada Rio-Santos quando, em 2003, a inglesa Liz Calder, da Bloomsbury Publishing, inventou de inventar a Festa Literária Internacional de Paraty.

E festa - muito mais que literatura - é comigo mesmo.


Havia pouca gente. Na maioria editores, livreiros, resenhistas e uns jovens cabeludos, meio encardidinhos, cheirando a incenso; eu diria, ahippieados.


Sob anonimato, mas pensando em chamar atenção, optei por um ‘diferencial’: fazer uma perfomance fantasiado.


Achei uma velha fantasia de Flipper - eu tinha essa paixão - no porão da casa da minha avó. Como a única peça que ainda cabia em mim era a cabeça, peguei uma Hering básica e pedi a um amigo que trabalhava com silk screem para gravar Flipper, assim na altura do tórax.


Paraty, dia da abertura do evento.


Tomei logo uma dose daquelas cachaças que só existem lá e em Tiradentes, duas doses de coragem (ou vice-versa) e, de pé em uma caixa de madeira largada na Praça da Matriz, declamei um poema (na verdade uma adaptação da minha velha redação):


‘Flipper, o golfinho camarada.


Quem sou eu neste caixote?

Um peixe! diz um parvonáceo,

Ignorando que o golfinho

Na realidade é um cetáceo.


Indago a um garoto

Por onde respira o golfinho

Ele responde firme:

É por um buraquinho.


Ah, buraquinho, né!?

Não foi à escola não?

Nunca te ensinaram

Que golfinho tem pulmão?


Aí passa uma moça

com jeito de riponga.

Olho de soslaio

Ela entra na onda.


Desço do meu caixote

A pego pelo braço

Tropeço no calçamento

Sumo sem deixar traço.


Paramos no caminho

Para ela fazer xixi

Chegamos na pousada

Sou um boto tucuxi.’


Nada. Nem um aplauso isolado. Os passantes não deram a menor bola, mas não paravam de tirar fotografias, alguns posando ao meu lado.


Voltando ao bar do Hiltinho, tirei a incomoda fantasia e fui lavar o rosto. Diante do espelho, vi o desastroso resultado da customização feita na minha T-shirt: não coube a palavra Flipper.


Já no ano seguinte, os organizadores começaram a discutir se deveriam chamar o evento de festa, feira ou de festival.


Não importava. Na minha camiseta cabia qualquer um dos três efes. Digo mais. Até mesmo se não acontecer neste ano pandêmico, a Flip continuará sendo Flip. Para sempre.


Agora vocês sabem o por quê.




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