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Era uma vez um presidente – e um povo bobo que aplaudia.

Atualizado: Fev 3


Era uma vez um deputado, que ainda nem era candidato a presidente, que dizia que o problema do Brasil era que a ditadura tinha matado pouca gente, que deveria ter matado pelo menos 30 mil, a começar pelo Fernando Henrique Cardoso – e o povo ordeiro aplaudia.

Era uma vez um deputado, desses bem vagabundos, ladrãozinho de salário de funcionário fantasma, que seria candidato a presidente quatro anos depois, que dizia que seu voto pelo impeachment era uma homenagem ao General Ustra, assassino, genocida e torturador da própria presidente a ser impichada – e o povo gentil aplaudia.

Era uma vez um candidato a presidente, já candidato a presidente, que fazia pose para fotos e videos de campanha simulando armas, prometendo a liberação do porte delas, levando crianças ao colo e perguntando se elas já sabiam atirar, que odiava tudo e todos os que a ele e ao seu projeto se opunham, que criava mentiras cruéis, criminosas, vídeo- montagens espúrias, divulgação de textos ou pensamentos apócrifos atribuídos a adversários políticos, tratados como lixo, sub-humanos e alvo de violência, intolerância e intimidações as mais diversas – e o povo cristão aplaudia.

Era uma vez um candidato a presidente que se elegera prometendo o fim eterno de toda a corrupção no Brasil, coisa atribuída à esquerda, que, como sabemos hoje, é tudo e todo mundo que discorda dele e que, tão logo assumira a presidência começara a colocar a máquina governamental para defender o filho, o amigo, a esposa, o advogado, o miliciano vizinho, a escória mais suja possível, das acusações as mais variadas, sendo as do filhinho Senador, peculato, corrupção ativa e falsidade ideológica – e o povo honesto aplaudia.

Era uma vez um presidente que tripudiava de uma pandemia mundial, da OMS, da Imprensa, do povo, dos "maricas" que morriam, dos coveiros, do STF, dos prefeitos, dos governadores, dos números oficiais que deixaram de ser oficiais, dos lockdowns, das máscaras, do distanciamento social, da transmissibilidade do vírus, dos estudos científicos, do consenso mundial sobre as únicas formas de combate à doença, dos que não acreditam nos efeitos curativos e milagrosos da cloroquina e dos vermífugos, dos investimentos por uma vacina, por duas, por 10, por qualquer uma, da vacina chinesa, do laboratório brasileiro que a produziria, do povo que a desejava, do governador que inventou de desenvolvê-la (só porque quer ser presidente, já que, como sabemos, quando já se é presidente só se quer que o povo morra, e daí?), dos que foram obrigados a dividi-la porque ele passou a querer a vacina na qual ele não acredita para prevenir uma doença que ele despreza – e o povo que odeia a Globo, a Folha, a OMS, os maricas e as pessoas que usam máscara, querem mudar de sexo e virar jacaré, aplaudia.

Era uma vez um presidente que já tinha dito foda-se, caralho, tomar no cu, vão se foder, no cu da minha família não, merda, porra, cu, caralho, merda, porra, foda, foda, fodeu, se foder, vão se foder, vão todos tomar no cu, filho da puta e caralho, em uma reunião ministerial gravada, que não gostou de ver publicado na imprensa aquilo que é exposto por lei no Portal da Transparência por seus próprios assistentes e disse "vai para puta que o pariu, imprensa de merda essa daí, é para enfiar no rabo de vocês aí, vocês não, vocês da imprensa, essa lata de leite condensado" – e o povo que não tolera pouca vergonha na novela das 8, aplaude.

Era uma vez um presidente que prometia governar longe da "nata que não presta", como se referia aos políticos do Centrão, aqueles que corromperam e se fartaram em todos os governos, de FHC a Temer, passando por Lula e Dilma, liderados por corruptos confessos como o presidiário Roberto Jefferson, por impichados (pelo mesmo Centrão) como Collor de Mello, que agora promete cargos, dinheiro público e por interessados em geral pelo fim do último suspiro da Lava Jato: aquela que os caçadores de corruptos amavam – e o povo exigente e seletivo aplaudia.

Era uma vez um presidente que ameaçava com golpe militar, que flertava com movimentos que queriam o fechamento do Congresso, que foi indo, indo, indo e se aninhou no colinho da serpente (sim, ela tem), nos braços daqueles que, antes, eram algozes do povo, corruptos e razão de todos os problemas do país e que, só então descobria-se, eram de fato grandes e injustiçados patriotas – e o povo justo aplaudia.

Era uma vez um candidato a presidente que era tosco, louco, misógino, machista, ignorante, violento, ligado a grupos de milicianos assassinos, amigo do pior da escória da política e da criminalidade brasileiras (o mesmo grupo, boa parte das vezes) que, até mesmo para com a sua base de eleitores e inexplicáveis defensores cometia evidente estelionato eleitoral, que chegaria ao ápice requintado de hipocrisia com a eleição do líder da nata, aquela, suja, do Congresso Nacional: Arthur Lira.

E o povo que não tolera bandidagem, politicagem torpe, toma-lá-dá-cá, aplaudia.

Era uma vez um país – e um povo da pior qualidade.

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