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Eu, Chef.

Atualizado: 21 de Dez de 2020

Há anos, em um mochilão pela Europa, trabalhei de cumim em um antigo, mas então obscuro, restaurante de uma pequena vila situada na Costa Brava, Catalunha.

Minha tarefa era montar as mesas, levar e tirar os pratos e talheres, lavá-los, e, ao final, arrumar o salão para o turno seguinte.

Não me incumbia tirar pedidos e era proibido conversar com os clientes. Sugestões? Nem o garçom. Só o maître. Regras da casa.


Certa noite, mesmo gripado, resolveram me improvisar como garçom, devido a falta de Javier Theobald, o melhor deles.


A responsabilidade era imensa, mas eu não aspirava a promoções. A intenção era ficar por ali umas duas, três semanas, deixar a gripe passar, e torrar a gorjeta nas farras de Ibiza, meu próximo destino.

Estava me medicando com 'Tagifor C', que minha zelosa mãe havia colocado na bagagem junto com preservativos, escova de dentes e essas coisas de mulherzinha.


Chegam os clientes. Em uma mesa com quatro senhoras emperiquitadas, um fortíssimo perfume deflagra em mim uma crise sequencial e interminável de espirros.


Na iminência de desferir o primeiro, segurei-o o quanto pude e acelerei os passos para fugir do salão e evitar o vexame.

Cruzando a porta vai e vem da cozinha, AAAAAAAATCHIM!


Ao levar a mão ao nariz, nela segurava a pastilha efervescente. Atado a um viscoso filete de catarro e parecendo um cometa, o Tagifor aterrissou dentro de um dos vasilhames de cristal nos quais seriam servidos o amuse bouche - naquela noite, uma delicada mousseline de abóbora com gengibre.

Diante de toda a equipe, o patrão me passou um esbregue de afugentar miúra da arena com o rabo entre as pernas.


Mas no dia seguinte, Ferran Adrià apresentou ao mundo a ‘Spuma de calabaza‘. Estava inaugurada a fase minimalista molecular do renomado El Bulli.

O resto é história.

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