Buscar

Eu invadi!

Atualizado: Jun 16

Achei que uma dessas excursões patrióticas aos hospitais, sugeridas pelo presidente, seria uma boa oportunidade para driblar o isolamento. Além disso, eu poderia descolar um teste sorológico gratuito e, quem sabe, vender um rim para complementar o orçamento doméstico, que anda à míngua 


Bati a poeira da camisa da Seleção, inventei um perfil falso (‘Brasélio’), fiz uma selfie e enviei para um grupo bolsonarista-raiz na internet.


A recepção foi desconfiada:


- Brasélio de quê?


Já ia completar ‘da Gávea, Brasélio da Gávea’, apesar de o bairro ser um point da esquerda, quando o sujeito emendou, com voz de chefe da ABIN:


- O que você quer!? 


Respondi, na lata:


- Eu quero a verdade.


Era a óbvia senha. Tava dentro. 


Temendo bisbilhotarem meu celular, deixei-o em casa, dei uma recarga no velho pré-pago, apaguei a memória e fui para o ponto de encontro. 


Sete pessoas aguardavam ao lado de uma van de uma cooperativa clandestina. Duas estavam armadas: o motorista e o seu ajudante. As demais, não dava para saber.


No caminho, puxei assunto:


- Alguém próximo a vocês contraiu o...


Fui cortado: 


- Ninguém aqui é gay, não somos soropositivos. 


- Mas o que esse vírus tem a ver com...


- Também não usamos droga, moço. 


Fim de papo.


Chegando ao estacionamento de um hospital público da Zona Oeste, passamos por dois contêineres refrigerados antes de pararmos na entrada da emergência. 


Junto a uns caras com pinta de milicianos e a uma equipe de cinegrafistas da TV BrasilGov, um senhor de terno azul claro e máscara, quase que se desculpando, nos entregou outras máscaras: 


- É só para entrar. Sigam-me.


Ao longo do corredor havia uma fileira de macas vazias cobertas por lençóis imaculadamente brancos.


- Podem começar as lives, disse ele. 


O burburinho aumentava à medida que avançávamos até uma porta com uma tabuleta: ‘Ala Covid-19’. Suspirei fundo. 


Dentro, o clima era de festa. Uma dupla entoava canções gospel, respiradores inflavam balões verde-amarelos, e um careca vestido de canário conversava animadamente com uma intérprete de libras. 


Um rosto conhecido apareceu na vigia da porta. Máscara pendurada na papada, ar bonachão. É. Era o Queiroz. Após percorrer o ambiente com os olhos, ele fez um sinal de ‘ok’ para trás.


A porta se abriu e Jair Bolsonaro entrou acompanhado do general Pazuello. O câmera da TV gravando tudo.


O homem de terno azul começou a aspergir um líquido sobre nós, como se estivesse nos abençoando. Eu havia reconhecido aquela voz aveludada e aquele tom cafona. Era o Crivella. No lugar de água benta, cloroquina. 


Após alinhar a turma da van em um semicírculo, a intérprete começou a puxar palmas ao ritmo da ‘Canção da Cura’, enquanto o presidente, o ministro e o prefeito iniciavam uma dancinha. A equipe que registrava a cena cobrou de mim: 


- Vamos lá, ânimo!


Provoquei:


- Cadê o Witzel?


Fui saindo de fininho até alcançar o corredor. Então, tomei o maior susto da minha vida. Da prateleira inferior de uma daquelas macas, uma mão tentou agarrar meu tornozelo. Desvencilhei-me no reflexo. Embaixo de cada uma havia um paciente. Trêmulo, cheguei ao estacionamento.


Tudo durou uns quinze minutos, o suficiente para que a mesma quantidade de brasileiros fosse parar em contêineres como aqueles.


Ao entrarmos na van, tivemos nossos celulares vistoriados pela dupla de condutores. O meu foi confiscado. 


Tinha a imagem do Queiroz dando as boas vindas ao presidente. E a da mão daquele moribundo que não queria se despedir da gente.



86 visualizações4 comentários

©2020 by Os Impostores