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Eu não selfo.

Atualizado: Jul 26

Minha primeira câmera foi uma Tuka.

Sim, existiu uma câmera chamada Tuka.

Meu pai que deu, quando eu fiz 10 anos.

Fazia 12 fotos preto e branco com filme 127 da Kodak, Agfa ou Fuji.

Fiz fotonovela usando a Tuka.

E os meus irmãos.

Revelei e colei em um caderno novo, comprado especialmente para o evento.

Uma história de crime e traição.

Com dois caras e a Lucimar, na vida real filha de uma moça que trabalhou na nossa casa, e que por um tempo virou a irmã que nós não tivemos.

Lucimar também era atriz do circo que encenamos, mas isso já é outra história - no caso, contada nos slides da Olympus Pen, orgulhosamente empunhada pelo meu pai.

Depois da Tuka houve outras na minha vida.

As analógicas, como a Yashica FX-D, as digitais bobinhas, até as atuais Red ou Sony A7, com lentes especiais, blablablabla.

Não me lembro, mesmo quando era o ator que recebia o tiro que acertava o meu coração – vejam vocês – desferido pelo meu próprio irmão, meu rival na busca pelo amor de Lucimar (ou qualquer que fosse o nome da sua personagem), de ter girado a câmera contra o meu próprio rosto no intuito de me fotografar em qualquer situação blasé, local supostamente marcante, trivial ou desimportante do mundo.

E não faço parte da cultura do "veja, sou eu aqui, neste local, completamente sozinho ou com esse grupo de pessoas que não conseguiram ninguém para tirar esta foto para nós".

E não entendo porque câmeras que foram feitas para captar - quanto?, 60% das fotos tiradas por celular? - selfies, são tão ruins para captar... selfies?

As lentes distorcem, as angulares são horrendas, parece que estamos todos dentro de um mundo de colheres reluzentes e muito convexas.

Mas o que eu menos entendo, nem é esse tudo que envolve essa estética e a psicologia desses nossos tempos.

O que eu definitivamente não compreendo é porque os comandos que a gente tem que apertar são tão contraditoriamente inimigáveis (deve existir o contrário de amigável) ao ponto de não fazerem nenhum sentido para quem quer se auto-fotografar sem colocar a mão diante da lente ou sem torcer o pulso em alguma posição completamente antinatural.

Resultado: 100% das primeiras tentativas de selfie dão, inevitavelmente, em tela preta: ao invés da foto eu apago a tela do telefone.

50% das segundas dão dedão ou braço em primeiro plano.

Eu poderia tentar a terceira vez, a da torção de pulso, mas me irrito tanto que a minha cara feia fica ainda pior na lente angular do sensacional iPhone 1, 2, 5, 8, 11, qualquer um.

Desisto feliz.

Eu tenho amigos e conheço os garçons.

Não faço análise, nem selfo.







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