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Evite japa no primeiro encontro.

Atualizado: Nov 19

Na entrada somos recebidos por gueixas de kimono que apontam onde deixaremos os sapatos - cheque a meia, parceiro.


O tatame é duro, a mesa é baixa e, da parede, pendem afiadíssimas espadas samurais sobre nossas cabeças.


No balcão, sushiman com bandana de kamikaze rodopiam amoladíssimas facas Ginsu a poucos milímetros dos nossos narizes.


É uma tradicional coreografia para fazer com que não nos esqueçamos de depositar a gorjeta no gato-cofrinho que, cinicamente, nos acena do canto.


Os guardanapos vêm enroladinhos e têm uma espécie de ereção ao entrar em contato com a água fervente despejada pelo garçom. Queimam os nossos dedos e o rosto.


O saquê transborda do masu, aquele raio de recipiente quadrado que, no Japão antigo, era utilizado pelos camponeses para comer.


Ninguém até hoje sabe quem deu de usá-lo para saquê, apesar de todo mundo se lambuzar. É como beber água em um prato raso.


Em um naviozinho de madeira, vem o rango distribuído sobre tufos de nabo desfiado revestidos por finas fatias de pepino. Na proa, uma pirâmide de wasabi numa base de lâminas de gengibre faz as vezes de uma carranca.


São distribuídos os pauzinhos (hashis) para os presentes travarem disputas por cada peça de sushi, de sashimi, de makimono.


À medida que se reduzem as opções, a falsa cerimônia do "escolhe você" dá lugar a olhares rancorosos e a golpes de esgrima.


Num jantar japonês a opção de deixar o melhor para o final equivale a cometer um harakiri gastronômico. Se estiver a dois, pior.


Foi o meu caso. Eu só queria um jantar romântico, mesmo contando com os olhos ardidos de wasabi, os respingos de shoyo na roupa e os irremovíveis grãos de gergelim presos entre os dentes.


Foi quando ela pediu talheres, avental e que todas as peças fossem maçaricadas e cobertas de cream cheese.


Pra completar, a conta veio salgada e o peixe, mais do que cru, creio que estava vivo. Vivo e, como eu, puto da vida.

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